Quem sofre com os efeitos de viagens longas pode se consolar sabendo que não está sozinho, pois o incômodo conhecido como jet lag também afeta outros animais na natureza. Conforme apontado por uma pesquisa publicada em 29 de outubro na revista Science, os bobos-pequenos da espécie Puffinus puffinus viajam tão velozmente para o leste ao voltarem para casa que o relógio biológico interno acaba ficando dessincronizado com o horário local da região sobrevoada, gerando uma leve desorientação e desvios de até 15 graus em suas rotas.
Apesar do transtorno, o efeito é sutil e não chega a ameaçar a viagem das aves. Segundo os pesquisadores, esse provavelmente é o motivo de a espécie não ter evoluído para evitar o jet lag – o erro é tão pequeno que não faz diferença na viagem.
Como o relógio biológico comanda as aves Semelhantemente ao que ocorre com os seres humanos, o fenômetro está ligado ao ritmo circadiano dos bobos-pequenos. Esse mecanismo interno regula sono, alimentação, reprodução e navegação utilizando a luz e a escuridão como referências para ditar o ritmo do organismo.
Durante o trajeto pelo oceano, essas aves marinhas de médio porte usam o sol como bússola para determinar a direção com base na posição do astro no céu. Como o sol muda de posição ao longo do dia, elas dependem de seus relógios internos para interpretar essas variações e manter a rota correta.
Na temporada de reprodução, os casais se revezam para chocar o único ovo: enquanto um permanece no ninho, o outro passa até duas semanas no Oceano Atlântico em busca de alimento, muitas vezes a centenas de quilômetros a oeste da colônia. Na viagem de volta rumo ao leste, o animal voa em alta velocidade para render o parceiro, completando o percurso em cerca de um dia.
Os cientistas suspeitavam que a velocidade fosse o gatilho do jet lag. Ao voarem rápido demais, as aves cruzam fusos horários antes que seus corpos processem a mudança, fazendo com que o relógio interno fique até cerca de uma hora atrasado em relação ao horário solar local na chegada.
Análise de dados de rastreamento Para testar a hipótese, a equipe avaliou 20 anos de dados de rastreamento por GPS referentes a 1.045 bobos-pequenos em período reprodutivo. O levantamento abrangeu 3.688 viagens em busca de alimento, das quais foram isolados 1.837 voos contínuos de volta ao ninho, no sentido leste.
Os cientistas previam que o jet lag provocaria pequenos desvios horários na rota, o que foi confirmado com variações de até 15 graus. No entanto, o impacto é mínimo: em uma jornada de aproximadamente mil quilômetros, um erro médio de sete graus acrescenta apenas cerca de 5 km ao percurso total.
Os próximos passos da pesquisa consistem em investigar se o problema altera horários de comportamentos importantes ou causa efeitos fisiológicos semelhantes aos observados em humanos. Embora o foco tenha sido o bobo-pequeno, os especialistas suspeitam que outras espécies de aves migratórias, morcegos e insetos também sofram com o jet lag.
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