Após 22 anos de operação, observatório Swift deve se desintegrar na atmosfera nesta quarta (4)

Telescópio espacial Swift desaba na atmosfera após 22 anos no espaço

Curiosidades

Lançado pela Nasa em 2004 com uma expectativa de vida útil de apenas dois anos, o telescópio espacial Swift superou todas as previsões e permaneceu 22 anos em operação na órbita da Terra. O equipamento durou tanto que sobreviveu ao próprio idealizador: Neil Gehrels, o astrofísico que liderava a missão, morreu em 2017 – e, no ano seguinte, o observatório foi rebatizado em sua homenagem como Neil Gehrels Swift Observatory.

Agora, a jornada chegou ao fim. A Nasa encerrou as operações do Swift em 20 de outubro, e o telescópio, de cerca de 1,5 tonelada, deve reentrar na atmosfera às 3h30 (horário de Nova York) desta quarta-feira (4), segundo a previsão mais recente da Força Espacial dos EUA – com margem de erro de 11 horas para mais ou para menos.

A maior parte dele vai se pulverizar no caminho: a cerca de 27 mil km/h, o atrito com o ar transforma o satélite em uma bola de fogo. Algumas peças mais resistentes, como componentes de tungstênio e pedaços dos espelhos, podem chegar inteiras ao chão. Onde elas vão cair, ninguém sabe. Como o Swift orbita em uma faixa estreita ao redor do Equador, os destroços só podem atingir a superfície entre as latitudes 20,6° Norte e 20,6° Sul – uma faixa que inclui boa parte do Brasil, do Amapá até mais ou menos Vitória (ES). O mais provável, porém, é que tudo termine no oceano. A Nasa calcula em 1 em 2.100 a chance de alguém, em qualquer lugar do planeta, ser atingido.

Motivos da queda e o impacto solar

Mas por que, afinal, ele está caindo? O Swift, como quase todo satélite artificial, não depende de um motor para se manter em órbita. Ele foi levado por um foguete a cerca de 600 km de altitude, onde a atmosfera é extremamente rarefeita, e lá ficou. Ao longo de sua vida útil, o Swift circulou a Terra a quase 8 km por segundo, e é justamente a velocidade que permitia a ele resistir à atração gravitacional do planeta. O problema é que, a cada volta, o satélite perde um pouco de velocidade e, com ela, de altitude. Todo satélite em órbita baixa passa por isso. É só uma questão de tempo.

No caso do Swift, o relógio correu mais rápido por culpa do Sol. Nossa estrela atingiu em 2024 o pico de seu ciclo de atividade, que se repete a cada 11 anos. Mais explosões solares significam mais energia despejada sobre a Terra, o que aquece e “incha” as camadas mais altas da atmosfera. Com isso, o ar passa a ocupar altitudes maiores – e o satélite passa a esbarrar em muito mais moléculas do que o previsto.

A Nasa ainda tentou um resgate. Pagou US$ 30 milhões à empresa americana Katalyst Space para construir, em menos de um ano, uma espécie de guincho espacial: um satélite com braços robóticos que agarraria o Swift e o empurraria para uma órbita mais alta. A nave, batizada de LINK, foi lançada em julho, mas teve problemas para controlar a própria orientação e gastou combustível demais tentando se estabilizar. Em agosto, o resgate foi cancelado.

Enquanto esperava o socorro, a equipe da Universidade Estadual da Pensilvânia, que opera o Swift, tinha suspendido a maior parte das observações e posicionado o telescópio da maneira mais aerodinâmica possível, para “furar” o ar com um mínimo de resistência. Quando chegou a notícia de que o equipamento não tinha salvação, os cientistas religaram os instrumentos para aproveitar os últimos meses – o que, ironicamente, acelerou a queda, já que mirar alvos diferentes no céu obriga o satélite a mudar de posição e piora o problema do atrito. Em 20 de outubro, a 275 km de altitude, o Swift entrou em modo de segurança e os controladores enviaram o comando que encerrou de vez a missão.

Legado científico e detecção de raios gama

Ele sai de cena com um currículo invejável: dados do Swift aparecem em cerca de 7 mil artigos científicos. E não há nenhum substituto pronto para ocupar seu lugar. Para entender o tamanho da perda, vale entender o que ele fazia de tão especial.

Vivemos mergulhados em um oceano de ondas eletromagnéticas de todos os tamanhos. Uma rede de wi-fi de 2,4 GHz, por exemplo, é formada por ondas de 12,5 cm, um pouco maiores que um celular. Se você conectar no 5 GHz, o comprimento diminuem um pouco: 6 cm (é por isso que o 2,4 GHz “pega melhor” quando você está em um cômodo diferente do roteador: ondas mais longas são melhores em atravessar paredes). E os seus dados móveis, no 5G, geralmente chegam a bordo de ondas de 3,6 GHz, com 8 cm.

Essa emaranhado de radiação que move a tecnologia contemporânea é invisível para nós, é claro. As ondas eletromagnéticas que nossos olhos são capazes de captar, que nós chamamos simplesmente de “luz”, são bem mais curtinhas do que essas: ficam entre 380 e 760 nanômetros (nm), uma unidade de medida que equivale a um décimo de milionésimo de centímetro. Mesmo um fio de cabelo, que é o parâmetro favorito dos jornalistas para falar de coisas minúsculas, é imenso nessa escala: têm 80 mil nanômetros de largura.

Quanto mais curtinha uma onda, mais energia ela carrega, e mais perigosa ela é para nós. Os raios X, que já oferecem algum risco ao ser humano em doses altas, têm no máximo 10 nanômetros de comprimento – e podem chegar a 10 picômetros, na ordem de grandeza de um átomo. Os raios gama, por sua vez, são menores ainda, e letais para a maioria dos seres vivos.

No espaço, só os fenômenos cósmicos mais violentos são capazes de produzir esse tipo de radiação, como colisões entre estrelas de nêutrons ou supernovas – que são o colapso de uma estrela de alta massa quando acaba o “combustível” no núcleo. Por isso, quando os astrônomos detectam uma enxurrada de raios gama, geralmente é sinal de que algo digno de nota acaba de acontecer em algum canto do cosmos.

O observatório Swift era especialista em detectar esse tipo de radiação. A atmosfera terrestre blinda o planeta contra raios gama, e é por isso que era importante os detectores estarem em órbita. De quebra, o Swift também conseguia “ver” comprimentos de onda maiores e com menos energia, como raios X, ultravioleta e luz visível. Para os astrônomos, isso é muito importante. Do mesmo jeito que uma foto colorida carrega mais informação do que uma foto em preto e branco, uma observação feita em vários comprimentos de onda diferentes revela mais sobre o fenômeno do que uma limitada aos raios gama.

Outra característica única do Swift é que ele passava o tempo todo escaneando o céu – e, quando detectava algo interessante, era capaz de manobrar por conta própria, automaticamente, para apontar seus detectores na direção correta.

O Swift é um dos representantes mais longevos de uma geração de observatórios em órbita que marcou o imaginário popular nos anos 1990 e 2000. O Hubble, o telescópio espacial mais famoso do mundo, está na mesma situação: não tem motor, perde altitude ano após ano e deve reentrar na atmosfera por volta de 2033. No fim de outubro, a Nasa abriu uma consulta para saber se empresas privadas conseguiriam empurrá-lo para uma órbita mais alta – ou, se não der, guiá-lo para uma queda controlada. As propostas vão até 30 de novembro, e o desfecho do caso Swift deve fornecer algumas lições para essa nova tentativa.

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