Militância une casais e faz da política ponte para novos relacionamentos

Militância une casais e transforma a política em ponte para o amor

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Era o final de noite do dia 7 de abril de 1989, quando João Roberto Lopes, à época com 22 anos, viu uma jovem que achou bonita durante a primeira festa de campanha de Lula à Presidência, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Desolado por não beijar ninguém na festa, ele conta que tomou coragem para se aproximar de Luciana Vargas Fraga, que tinha 21. A conversa terminou quando ela foi embora, mas João conseguiu pegar seu telefone.

“Peguei a estrelinha do PT no chão, que tenho até hoje, e anotei o número dela”, lembra. Quase quatro décadas depois, a política continua presente na vida do casal, que acompanhou junto a trajetória do petista.

Em 2003, foram à posse de Lula em Brasília, acompanhados da primeira filha, à época com 3 anos. Em 2018, assistiram pela televisão ao petista ser preso. “Foi também em um 7 de abril. Lembro de ter me emocionado por causa disso”, diz João. No último ato da campanha de Lula do segundo turno deste ano, eles compareceram à praia de Copacabana erguendo um cartaz que relembrava o primeiro encontro.

Embora nos últimos anos tenha gerado desentendimentos e afastamentos entre familiares e casais, a política também funciona como ponto de aproximação. Para a psicanalista Fernanda Tavares, a polarização se consolidou en torno de posições rígidas, com perda de espaços de mediação e de convivência, em especial a partir dos anos 2010 –e de forma mais evidente nas eleições presidenciais de 2018, disputadas por Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PL).

Na avaliação dela, o processo eleitoral mais recente sinaliza uma tentativa de retomada da vida em comum, o que também pode se manifestar na vida afetiva.

“Há uma abertura para conviver com as diferenças e para construir algo coletivamente a partir disso”, afirma.

O Ministério do Namoro e a paquera na militância Em 2022, um meme da campanha petista viralizou na internet ao solicitar a criação do “Ministério do Namoro”. O presidente Lula entrou na brincadeira e, já em seu terceiro mandato, chegou a pedir desculpas por não cumprir a promessa.

Agora, na campanha de 2026, a militância retomou a ideia e anunciou a criação do “Tinder do Exército do Lula”, no WhatsApp. No canal, só os administradores podem publicar mensagens, e os seguidores apenas recebem os avisos e os convites. A paquera acontece nos grupos, separados por DDD, em que todos podem conversar —cabem até 1.024 pessoas por vez.

Novos romances inspirados pelas urnas O relacionamento entre a designer Lia Moreira, 29, e o cineasta João Lucas Garcia, 30, também foi marcado pelas eleições. Embora não sejam filiados ao PT, os dois se engajaram na campanha de 2026 para a reeleição do presidente Lula. No domingo do dia 25 de outubro, o casal acompanhou a apuração do segundo turno da praça São Salvador, reduto da esquerda carioca, ao lado de amigos e familiares. Quando o resultado foi anunciado, João se ajoelhou e propôs casamento a Lia.

“Eu já tinha comprado a aliança desde fevereiro, mas estava esperando o momento certo para fazer o pedido”, diz. “Eu não entendo muito dessas coisas e me disseram que a aliança se coloca na mão direita. Daí, coloquei e disse ‘amor, é só dessa vez que é na direita, depois a gente vai botar na esquerda’”, brinca.

Os dois se encontraram em 2021, quando Lia não era tão engajada quanto o noivo.

“Quando eu conheci o João, passei a entender melhor o lugar social onde estava inserida e as escolhas que vinha fazendo”, diz a designer.

A política também foi o que aproximou Danilo Geber, 30, e Joana Geber, 25. Ambos são militantes do MBL (Movimento Brasil Livre), mas até 2019 se conheciam apenas pelas redes sociais, já que viviam em cidades diferentes: Danilo, em São Paulo, e Joana, em Cabo Frio (RJ).

“Um dia eu estava rolando o feed e vi uma postagem dela falando que ia aposentar a camisa do MBL. Perguntei se ia sair do movimento e ela disse que estava se mudando para Brasília”, conta Danilo. Coincidentemente, ele havia recém-chegado à capital federal e buscava novas amizades. Os dois passaram a sair para conversar e conhecer pessoas na cidade, até começarem a namorar, em maio daquele ano.

O casal permanece junto desde então e a militância continua fazendo parte da rotina. Danilo trabalha em campanhas eleitorais e Joana acompanha eventos políticos com os dois filhos. Quando possível, os quatro também participam de panfletagens.

Para a psicanalista Fernanda Tavares, os últimos anos marcados pela polarização política criaram um contexto de dificuldade de imaginar o futuro, marcado por crises econômicas, climáticas e de outras naturezas.

“Poder recuperar a partir da política a possibilidade de imaginar um futuro coletivo também abre espaço para as pessoas quererem construir um futuro no campo afetivo”, explica.

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