O romance Nódoa, da escritora Calila das Mercês, desconstrói as noções clássicas de linearidade ao abrir sua narrativa por uma seção intitulada “meio”. Essa escolha estrutural sintetiza a essência do projeto literário da autora, no qual o deslocamento e o trânsito contínuo são pontos de partida fundamentais para a construção da história.
Essa dinâmica de mobilidade já havia sido apresentada em Planta oração (Nós, 2022), volume de poemas-contos em que a autora explorava os fluxos da palavra em um território-floresta por meio de experimentações formais e poéticas. Em Nódoa, há uma nítida continuidade dessa proposta, tanto pelo resgate de vidas situadas fora dos grandes centros e distantes do capital quanto pelos recursos estéticos utilizados.
Construído como uma obra de e sobre mulheres, o livro se articula por meio de diferentes “movências”: espaciais, com raízes em Cajueiro; temporais, que remontam à década de 1960; e existenciais, transitando nas fronteiras entre vida e morte. É nesse trajeto que emerge a presença constante da ideia de enlace e amarração, simbolizada pela palavra “nó”, embutida no próprio título da obra.
Os múltiplos sentidos do nó na narrativa
Embora a publicação comece pelo meio, a seção seguinte, chamada “começo”, é inaugurada justamente a partir de um nó dado na mortalha, próximo ao nariz, que evita um sepultamento prematuro. O episódio marca uma inusitada ressurreição:
“Ainda estou besta que quase fui enterrada viva. Se não fosse o nó numa hora daquela, onde eu estaria?”
Ao longo do enredo, diferentes vozes narrativas demonstram como esses laços estruturam suas trajetórias. Lurdinha, ao rememorar o vínculo paterno, pontua: “Eu era o nó dele com mamãe. Eu era o nó dele com todo mundo”.
Mais adiante, a personagem Regina recupera as lições práticas sobre o tema: “Nó pra juntar qualquer coisa era o d’água, o de pescador, nó direito e nó de boca de saco, pra nenhum bicho comer na saca de açúcar e de milho…”. Ela complementa, ressaltando a dimensão afetiva e comunitária do gesto:
“Mas o nó que me salvou mesmo foi Dona América que ensinou toda a gente lá de casa fazer, não tinha nome, não, era até fácil, parecia com nosso povo do tanto que era simples, um nó-nó, sabe?”
A síntese dessa perspectiva ganha força quando Lurdinha afirma:
“A história é sobre o nó que tem no nosso mundo, o nó do ar e do mundo todo.”
A linguagem como reinvenção da existência
Longe de se limitar a jogos lexicais, o trabalho de Calila das Mercês aborda corpos concretos e identidades que reivindicam a legitimidade de suas presenças e desejos. A cena da ressurreição funciona como metáfora social sobre as existências marginalizadas que sobrevivem à invisibilidade imposta cotidianamente.
Nesse contexto, o próprio conceito de nódoa ganha camadas de sentido, surgindo em menções diretas como “a nódoa do corpo que fica por dentro” e “a nódoa de caju que trai os gemidos”. A marca enodoada passa a simbolizar trajetórias dissidentes que se encontram na partilha e na recusa à padronização.
Memória e permanência das palavras
A temática do regresso atravessa a publicação desde o início, como explicita o texto de dedicatória:
“Às pessoas que tentaram sair e retornar para casa. Às que nunca puderam retornar para casa. Às que acreditam que a casa é onde se está. Às que retornam para casa todos os dias. Às que retornaram, mas nunca chegaram.”
Em meio aos fluxos e à impermanência, a palavra surge como espaço de ancoragem. Registros em fragmentos do “caderno mundinha” atestam essa busca por fixar a memória no tempo: “MAR = SONHO”, em maio de 1960, e “UM DIA CAJUEIRO VAI SABER DE TUDO DO NOSSO MUNDO”, no verão de 1966.
Se, como pontuado no caderno, “vida é lida”, a escrita de Mercês reafirma o poder das letras em reconstituir mundos e manter vivas as trajetórias dessas mulheres.
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