O mercado editorial brasileiro recebe uma safra diversificada de publicações que transitam entre ficções profundas sobre memória, análises políticas contemporâneas e reflexões sobre a produção artística e social.
Ficção brasileira mergulha em memória e identidade
Vencedor de prêmios como Jabuti, Oceanos e Machado de Assis, Bernardo Carvalho apresenta Xilocosmos (Companhia das Letras, 136 pp, R$ 74,90). Na trama, o protagonista é confrontado por uma mensagem eletrônica que revive um trauma de juventude envolvendo racismo e violência contra a personagem Dulce. A partir desse gatilho, ele parte em busca de reconstruir a história, esbarrando em memórias fragmentadas e versões contraditórias dos acontecimentos.
Ao analisar a estrutura da narrativa, o crítico Élvio Cotrim pontua: “Uma xilogravura pode ser impressa mais de uma vez. A matriz de madeira recebe tinta, o papel é pressionado contra ela e o desenho reaparece. Há nessa técnica duas operações que ajudam a ler Xilocosmos, novo romance de Bernardo Carvalho: repetição a partir de uma matriz e imagem produzida por subtração. Para que uma parte do papel continue branca, é preciso retirar a madeira. O que foi retirado da matriz não deixa de participar da imagem: aparece nela como ausência de tinta”.
Outro destaque ficcional é Previsão do tempo para Doralice Antunes (Todavia, 112 pp, R$ 79,90), de Nara Vidal, laureada com o prêmio APCA por Puro. O enredo acompanha Doralice, moradora de uma cidadezinha mineira que aceita o matrimônio com Tavinho na tentativa de escapar do isolamento, ocultando mistérios sob a fachada de uma vida pacata.
Celebrando oito décadas de vida de uma das maiores vozes do país, a coletânea A gente combinamos de escrever (Malê, 140 pp, R$ 64) reúne dez autores organizados por Eliana Alves Cruz e Estevão Ribeiro em tributo a Conceição Evaristo. Sobre a antologia, a pesquisadora Maria Carolina Casati observa: “O que cada um desses dez autores faz em A gente combinamos de escrever é considerar personagens e elementos da obra de Evaristo documentos legítimos que podem ser atualizados, tensionados, fabulados a fim de legitimar (um)a História de quem é descendente da diáspora atlântica. A travessia é refeita pela e na palavra”.
Ensaios sobre sociedade, comunicação e psicanálise
A agência de notícias independente Alma Preta publica seu Manual de redação (Fósforo, 216 pp, R$ 89,90), estruturado por Juarez Tadeu de Paula Xavier, Solon Neto e Pedro Borges, com textos de apresentação assinados por Flávia Oliveira e Ana Flávia Magalhães Pinto. O volume estabelece diretrizes e fundamentos éticos para a construção de um jornalismo pautado pelo combate ao racismo e pelo compromisso com a igualdade.
Em Diálogo sobre arte e política (Todavia, 64 pp, R$ 59,90, com tradução de Marilia Scalzo), o escritor Édouard Louis e o cineasta Ken Loach debatem a função da criação estética diante do crescimento de forças de extrema direita entre as classes trabalhadoras. No campo das ciências humanas, o psicanalista Christian Dunker e o educador Cláudio Thebas lançam A revolta dos patinhos feios (Paidós, 192 pp, R$ 64,90), utilizando o conto clássico para investigar como o sentimento de deslocamento social pode servir de ponte para relações afetivas.
Já o autor francês Pascal Quignard, ganhador do Prêmio Goncourt, investiga o afeto e a pulsão humana a partir de abordagens históricas e filosóficas em Complementos à teoria sexual e sobre o amor (Ercolano, 320 pp, R$ 107, tradução de Verónica Galíndez).
Biografias e narrativas plurais ampliam o catálogo
A prestigiada escritora chilena Isabel Allende compartilha suas memórias e os bastidores de sua jornada literária em A palavra mágica: uma vida escrita (Bertrand Brasil, 196 pp, R$ 79,90, tradução de Ivone Benedetti), revelando métodos de criação que marcaram sua carreira desde a juventude.
As prateleiras contam ainda com uma seleção de estre
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