Estudantes do ensino médio que vivem em comunidades tradicionais no Amazonas estão sendo aprovados no sistema escolar estadual mesmo sem terem tido aulas regulares. O Ministério Público Federal (MPF) constatou o problema em 11 localidades, englobando terras indígenas, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável distribuídas por oito municípios. O órgão suspeita da ocorrência de crimes, incluindo o uso de documentos fraudulentos por servidores da Secretaria de Estado de Educação para validar as progressões curriculares.
A constatação ocorreu após dezenas de encontros do órgão com membros das populações locais. O cenário identificado aponta para um colapso estrutural: ausência de docentes, escassez de prédios escolares, paralisação de transporte, falta de merenda e ausência de materiais pedagógicos adequados para atender povos ribeirinhos e originários em locais de difícil acesso.
Prazo para termo de ajustamento e risco de processos
Diante da gravidade da situação, o MPF apresentou uma proposta de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) à pasta de Educação e estipulou o próximo dia 13 como data-limite para a assinatura do compromisso.
O documento exige iniciativas emergenciais imediatas, tais como a realização de processos seletivos simplificados para a contratação de educadores indígenas e um mapeamento detalhado da infraestrutura física, logística fluvial e terrestre, além de recursos didáticos. Caso a gestão estadual recuse o acordo, a Procuradoria planeja acionar o Poder Judiciário na esfera cível e abrir investigações formais sobre as fraudes documentais associadas aos registros falsificados de frequência e notas.
O governo do Amazonas foi consultado por mensagem eletrônica na tarde da última terça-feira (6), mas não emitiu resposta até o momento. Em junho de 2025, apurações já apontavam a aprovação indevida de alunos indígenas do ensino médio sem o fornecimento da grade curricular em áreas como o Vale do Javari e a Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto.
Precariedade atinge calhas de rios em todo o estado
Após a realização de reuniões com as comunidades lideradas pelo procurador Fernando Merloto Soave, o MPF sistematizou os dados do estado, onde funcionam mais de mil salas de aula indígenas. A avaliação é que o problema ocorre de forma generalizada pela imensidão territorial e isolamento geográfico:
* Boca do Acre: em reservas extrativistas no sul amazonense, jovens ribeirinhos são promovidos compulsoriamente pela inexistência de professores. * Coari: moradores de reservas estão formalmente matriculados, mas não contam sequer com equipamentos essenciais para as atividades escolares. * Fonte Boa: no médio rio Solimões, o relatório aponta que indígenas “apenas respondem provas quando o professor manda e vão passando de ano normalmente”. * Humaitá: aldeias não têm barco próprio para os alunos, dependendo de favores da comunidade; alguns estudantes caminham dois quilômetros a pé para assistir aulas. * Japurá: sem merendeiros e docentes, jovens navegam por até duas horas à noite pelo rio para tentar estudar. * Novo Aripuanã: o transporte escolar fluvial é mantido por pilotos informais e o fornecimento de merenda foi interrompido por quatro meses consecutivos. Parte dos professores leciona dez dias no mês e outros não comparecem durante todo o período letivo.
Crise severa atinge aldeias Yanomami
As condições desumanas também afetam a porção amazonense da Terra Indígena Yanomami. Um diagnóstico elaborado em setembro pela Associação Parawami Yanomami e repassado ao MPF denuncia instalações precárias, crianças sem carteiras e uso recorrente de produtos ultraprocessados na alimentação escolar, resultando em sucessivos quadros de diarreia entre os estudantes.
De acordo com o documento da entidade representativa, em uma das aldeias “faltam cadeiras, quadro, lápis, canetas e material de cozinha”. Em outra localidade visitada pela associação, a realidade é ainda mais crítica: “não tem prédio e alunos estudam no chão”.
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