A fotógrafa brasileira Janaina Villela foi surpreendida no caixa de uma loja de departamentos na praça do Duomo, em Milão, quando uma funcionária disse: “You must go”, você precisa ir. O episódio ocorreu no meio da tarde da última segunda-feira (19), em um momento em que comerciantes locais temiam a repetição de cenas de vandalismo registradas durante o fim de semana.
“Eu chamei minha amiga e disse para irmos embora. Olhei o mapa no celular e decidimos sair por trás da loja. Fomos até [o bairro de] Brera”, disse Villela. Naquela ocasião, estabelecimentos comerciais abaixaram as portas antes do horário habitual nos arredores do Duomo, principal cartão-postal da cidade, e também no Quadrilátero da Moda, área que concentra grifes de luxo.
Moradora de São Paulo, a fotógrafa está de férias em uma excursão focada em arte que passa por Itália e França. Com exceção do susto e da alteração forçada no roteiro, a estadia de três dias em Milão transcorreu sem maiores problemas.
Planejada no início do ano, a viagem coincide com um período de intensos protestos em nações como Itália, França, Portugal, Espanha e Bélgica. As manifestações são motivadas por insatisfações gerais com o encarecimento do custo de vida, o sistema educacional e as condições de moradia.
Em capitais como Paris e Milão, pequenos grupos quebraram vidraças, incendiaram veículos e saquearam comércios. Houve confrontos diretos com forças policiais, que responderam com bombas de efeito moral. Milhares de pessoas acabaram detidas, enquanto administrações locais anunciaram medidas mais rígidas, incluindo toques de recolher, reforço no policiamento e penas mais severas. Novos atos estão previstos para o próximo fim de semana.
Rotina turística e orientações oficiais
Apesar da tensão, o turismo e o cotidiano dos moradores continuam funcionando nas cidades afetadas. Nos últimos dias, circularam pelas redes sociais registros de turistas cruzando manifestações em Paris enquanto empurravam malas, praticavam exercícios físicos ou frequentavam restaurantes com aparente normalidade.
Apesar de países como Itália e Alemanha terem emitido alertas para seus cidadãos que planejam viajar para a França, não existem proibições oficiais de viagens em vigor no momento.
Até quarta-feira (21), o Itamaraty não havia publicado avisos específicos sobre os atos na Europa, embora as recomendações possam ser consultadas diretamente no Portal Consular.
Em contato com a reportagem, o ministério aconselha que os turistas mantenham distância de aglomerações e locais com manifestações programadas, acompanhem os noticiários locais e sigam “rigorosamente as orientações das autoridades”. A pasta sugere ainda o monitoramento de sites e redes sociais das embaixadas e consulados brasileiros nos destinos planejados.
Assim como ocorre na avenida Paulista, em São Paulo, os atos públicos na Europa costumam se concentrar em praças e vias tradicionais conhecidas justamente por abrigar essas movimentações. A grande maioria dos demais bairros permanece inalterada.
Em Milão, os pontos recorrentes de protestos incluem a praça do Duomo, a fachada da estação Centrale e o corso Venezia. Já em Paris, as ocorrências recentes se concentraram nos arredores da Place de la République e em Les Halles, além das praças da Bastille e da Concorde.
Dicas práticas para evitar transtornos
“Para viajantes, é melhor evitar áreas onde ocorrem protestos e, para isso, perguntar à hospedagem”, diz Agnès Angrand, diretora para a América do Sul da Atout France, órgão do governo de promoção do turismo. Ela indica monitorar os canais da RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens), que tem atualizações em tempo real sobre meios de transporte.
Os reflexos mais comuns dos atos são desvios nas rotas de ônibus e bondes, além do fechamento temporário de estações de metrô. Aplicativos de transporte costumam enviar alertas aos residentes antes e durante as mobilizações. Visitantes que tiverem dúvidas podem buscar orientações com moradores, guias e equipes de hotéis.
Atrações culturais também podem fechar as portas de última hora. Foi o que ocorreu com o Museu do Louvre na segunda-feira (19), após ser alvo de protestos estudantis. O local informou em seu site oficial que todos os ingressos seriam estornados de forma automática. Por isso, a recomendação é confirmar o funcionamento dos locais antes de sair do hotel.
Normalmente, as manifestações começam no período vespertino, tornando as manhãs o momento mais seguro para passeios ao ar livre e visitas a pontos turísticos famosos. Os finais de semana também concentram um volume maior de protestos em comparação aos dias úteis.
Embora a contratação de um seguro viagem internacional seja altamente recomendada para emergências médicas, é fundamental verificar as regras específicas de cada apólice quanto a reembolsos por cancelamentos ou prejuízos decorrentes de agitações civis. Via de regra, riscos associados a eventos previsíveis, como protestos já anunciados, ou desistências motivadas pelo medo de conflitos não entram na cobertura.
Orientações essenciais para turistas brasileiros na Europa:
– Buscar conhecer e seguir as orientações das autoridades locais – Evitar multidões e locais da cidade onde estejam agendados protestos – Monitorar a imprensa local, para se manter atualizado sobre protestos e seus desdobramentos – Procurar se informar com moradores locais, guias turísticos ou funcionários de hotéis sobre manifestações naquele dia – Seguir canais e aplicativos de transporte público das cidades visitadas, para atualizações em tempo real sobre protestos e interrupções de serviço – Checar antes de ir se atrações turísticas, centros comerciais e restaurantes estão abertos – Acompanhar as páginas eletrônicas e redes sociais da Embaixada do Brasil e dos Consulados-Gerais no país para o qual se desloca – Ter em mãos números de emergência e endereço de hospedagem. Na União Europeia, o número de emergência é 112 para todos os países
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