A armadilha da falácia de autoridade ocorre quando uma afirmação é considerada verdadeira apenas pelos títulos de quem a emitiu, ou quando o acerto de alguém sem credenciais vistosas é descartado. Em abril de 2021, um erro básico em uma análise estatística feita por Michael Levitt — físico laureado com o Prêmio Nobel de Química de 2013 e professor em Stanford — foi apontado, demonstrando como até mesmo mentes brilhantes podem falhar ao sair de sua área de especialidade.
Na ocasião, Levitt publicou no Twitter uma análise realizada, segundo ele, em uma hora de Excel. Utilizando os óbitos anuais do Portal da Transparência do Registro Civil entre 2015 e 2019, ele projetou o “esperado” para 2020 em 1,36 milhão de mortes no Brasil. Como o Registro Civil indicava 1,45 milhão, ele calculou um excesso de apenas 93 mil óbitos — metade dos quase 200 mil atribuídos à Covid naquele ano —, concluindo que haveria sobrenotificação de mortes no país.
No entanto, faltou aplicar o chamado teste de sanidade. A série histórica do Registro Civil crescia em média 9% ao ano porque o sistema digital era relativamente novo, com cobertura baixa que melhorou com o tempo. O “crescimento” mediu, em grande parte, a expansão da cobertura dos dados. Ao confrontar o modelo com a fonte histórica consolidada do DataSUS, que apontava alta de 1,7% ao ano entre 1996 e 2019, o excesso de óbitos real chegava a cerca de 190 mil.
Após o alerta, Levitt reconheceu a falha e agradeceu, destacando que era a primeira vez que via dados de uma base oficial que não mereciam confiança. O episódio evidenciou que o viés de confirmação o levou a defender uma tese sobre a qual já era simpático, sem aplicar o rigor estatístico habitual.
A “doença do Nobel” e outros casos célebres Michael Levitt está longe de ser um caso isolado na história da ciência. O fenômeno, conhecido informalmente como a “doença do Nobel”, engloba outros pesquisadores premiados que embarcaram em ideias descabidas:
Linus Pauling, único vencedor de dois Nobel não compartilhados (Química em 1954 e da Paz em 1962), passou a defender a partir de 1970 que megadoses de vitamina C previnham resfriados e tratavam o câncer, teses não confirmadas por ensaios controlados. Kary Mullis, Nobel de Química de 1993 pela técnica da PCR, negou em sua autobiografia publicada em 1999 que o HIV causasse a AIDS, contestou o aquecimento global antropogênico e relatou um encontro noturno com um guaxinim fluorescente falante. Luc Montagnier, que dividiu o Nobel de Medicina de 2008 pela descoberta do HIV, afirmou posteriormente que o DNA de bactérias emitiria ondas eletromagnéticas capazes de “imprimir” sua assinatura na água e que o SARS-CoV-2 teria sido fabricado com trechos do HIV.
A importância da verificação científica Apesar desses exemplos, confiar em especialistas continua sendo racional e necessário. O erro reside em considerar a opinião alheia como prova definitiva, dispensando o exame dos argumentos.
Como pontuou Paul Nurse, Nobel de Medicina de 2001, a distinção muitas vezes faz com que a sociedade passe a tratar os laureados como especialistas em tudo. A ciência opera por meio da verificação: um argumento se sustenta pela robustez dos dados utilizados e pela resistência a testes, e não pela credencial de quem o profere.
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