A internet está repleta de conteúdos sobre as maravilhas de acordar antes do sol nascer, sugerindo práticas como correr, cuidar da pele, ir à academia, ler e varrer a casa antes do dia clarear. Se você tentou adotar esse estilo de vida e falhou estrepitosamente, saiba que essa dificuldade nem sempre é falta de disciplina, mas sim uma questão ligada ao seu relógio biológico.
O papel dos cronótipos e o jetlag social
A ciência comprova amplamente a existência dos cronótipos, que são as predisposições biológicas e genéticas que determinam os horários em que cada indivíduo naturalmente se sente mais alerta, produtivo ou sonolento. Um estudo recente publicado na Nature Communications aponta que existem pelo menos cinco cronótipos, justificando o fato de algumas pessoas despertarem naturalmente cedo, enquanto outras preferem dormir até mais tarde.
O termo jetlag social se refere ao descompasso entre o nosso relógio biológico (ritmo circadiano) e o nosso relógio social (hora local, compromissos etc.), que geralmente se expressa na diferença entre o padrão de sono que adotamos nos fins de semana e durante os dias de trabalho. Ou seja, se o seu corpo prefere dormir e acordar mais tarde, mas o trabalho exige que você pule da cama às 6h, a rotina acaba ditando um ritmo diferente do seu. Nos dias livres, sem despertador, a tendência é voltar aos horários mais naturais. Essa alternância pode provocar uma sensação parecida com a de mudar de fuso horário, mesmo sem sair da cidade.
Essa expressão foi inspirada em um estudo que conseguiu demonstrar que as pessoas que dormem em horários diferentes conforme o dia da semana tendem a consumir mais tabaco, cafeína e álcool do que as que têm padrões de sono regulares. Outras pesquisas provaram que o impacto do jetlag social pode aumentar o risco de várias doenças e problemas relacionados ao corpo e à mente, especialmente entre os adolescentes.
Estratégias para quem precisa madrugar
Embora essa tendência tenha um componente genético, existem práticas que podem fazer quem rende melhor à noite ter uma relação mais amistosa com a manhã. O primeiro passo é determinar o momento certo de descansar. Um alarme para lembrar de encerrar o dia pode ajudar: é a deixa para desligar as telas, deixar o celular longe da cama e trocar as maratonas de séries ou games por algumas páginas de um livro de papel. Também vale antecipar o último café, deixando um intervalo de pelo menos seis horas antes de dormir.
Em relação à hora de acordar, é melhor ir aos poucos, antecipando gradualmente o despertador e reservando tempo suficiente para dormir. Manter horários próximos durante a semana e nos dias livres pode ajudar nessa adaptação. À medida que seu corpo se acostuma, você começará naturalmente a ir antes para a cama.
Estudos também descobriram que o sol da manhã pode acelerar o ritmo circadiano, o que ajuda o corpo a se adaptar à vida matutina. Por isso, abrir a janela e se expor por alguns minutos à luz solar torna o processo mais fácil. Se conseguir dar um jeito de fazer um pouco de exercício ao ar livre logo cedo, melhor ainda. Uma simples caminhada já é uma boa maneira de dizer ao seu relógio interno que é hora de ficar esperto.
Se, ainda assim, acordar cedíssimo for muito violento para você, avalie a real necessidade de fazer isso. Não vale a pena começar o dia antes do sol nascer só para provar (para quem?) que é uma pessoa mais produtiva, ou por influência de trends de bem-estar. Você até consegue estar em pé às 7h, mas o mau humor vem junto? Será que não é melhor adiar por mais uma hora e levantar com o astral mais solar? O melhor é fazer alguns testes e entender o que traz mais benefícios.
Também é preciso tomar cuidado para não cair na mentalidade do “trabalhe enquanto eles dormem”, muitas vezes glamourizada nos conteúdos sobre rotina. Se não sobra nenhum momento do seu dia para fazer o que você deseja, é importante avaliar se sua jornada de trabalho está sendo justa, se seu tempo nas redes sociais não está excessivo ou se existem outras mudanças que podem ser feitas.
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