Lula promete mais ensino de matemática, área considerada a mais crítica da educação no Brasil

Lula promete mais matemática para transformar o Brasil em país desenvolvido

Educação

Em seu discurso de vitória após ser reeleito, o presidente Lula (PT) afirmou que o governo vai priorizar o ensino de matemática durante seu quarto mandato. O petista apontou o investimento na área, considerada o ponto mais crítico da educação nacional, como o caminho essencial para transitar das “vias de desenvolvimento” para o status de “país desenvolvido”.

“Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira”, declarou o chefe do Executivo sobre suas metas para o novo mandato.

Especialistas da área avaliam que a prioridade anunciada ataca diretamente o maior gargalo educacional do país. Para analistas, avançar na disciplina não apenas eleva a qualidade de ensino, mas fomenta competências transversais e amplia o potencial econômico brasileiro.

“É muito difícil mexer no ponteiro da qualidade da educação sem mexer no ensino de matemática. Garantir que os alunos aprendam o esperado nessa disciplina vai fazer com que compreendam melhor outras áreas do conhecimento, desenvolvam pensamento crítico, solução de problemas, ganhem confiança e desejem continuar estudando”, destaca Katia Smole, diretora-executiva do instituto Reúna.

Desafios orçamentários e o programa federal

Lançado no ano passado pelo Ministério da Educação, o Compromisso Nacional Toda Matemática representa a primeira política pública federal focada exclusivamente na disciplina. Embora seja vista como um acerto, especialistas apontam que a iniciativa ainda carece da intensidade necessária.

“É um programa muito bem estruturado e que já induziu estados e municípios a se mobilizarem por melhorias no ensino de matemática. Agora, quando o presidente fala em fortalecer essa área, a gente espera a previsão de mais recursos”, pondera Kátia.

Para o ano de 2025, o MEC destinou cerca de R$ 70 milhões ao programa, valor voltado à formação de professores, materiais didáticos e ações pedagógicas. O montante equivale a menos de 15% do orçamento direcionado no mesmo período ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA).

“Há muito tempo o Brasil enfrenta uma defasagem grande em matemática. Nos últimos anos, tivemos avanços muito tímidos no aprendizado dos alunos nesta área. Por isso, precisamos de ações mais robustas para enfrentar esse desafio”, pontua Priscila Cruz, presidente do Todos pela Educação.

Em nota oficial, o MEC informou que planeja duplicar o orçamento do Toda Matemática para R$ 140 milhões em 2027. “Os resultados mostram que temos desafios históricos na aprendizagem matemática, mas também indicam que é possível avançar quando há políticas consistentes, continuidade das ações e articulação entre os diferentes níveis de governo”, destacou a pasta.

O retrato da defasagem escolar

Apesar de avanços na rede pública nas últimas duas décadas, o progresso em matemática continua modesto, especialmente se comparado ao desempenho em língua portuguesa.

Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) indicam que a proporção de alunos com aprendizado adequado em matemática no 5º ano do ensino fundamental triplicou entre 2002 e 2025, subindo de 14,8% para 50,6%.

No entanto, o ritmo desacelera drasticamente nas etapas seguintes. No 9º ano, o índice passou de 7,9% para 18,8% no mesmo intervalo. Já no 3º ano do ensino médio, a taxa foi de 5,2% para apenas 8,5%. Isso significa que menos de 1 em cada 10 estudantes conclui a educação básica com o aprendizado esperado na disciplina.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) reforça o cenário desfavorável. Enquanto quase metade dos jovens de 15 anos atinge o nível básico em ciências e leitura, o percentual cai para 28% em matemática, conforme dados de 2025.

A cumplicidade inerente à matéria agrava o problema. “Se o aluno não desenvolveu uma habilidade no início da vida escolar, isso prejudica a aprendizagem futura. É uma bola de neve que vai crescendo ao longo dos anos”, alerta Nara Bobko, gerente acadêmica do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

Formação de professores e soluções globais

A superação dos obstáculos exige ir além do aumento de carga horária. Especialistas apontam falhas na formação docente, dificuldades no diagnóstico precoce de lacunas e metodologias que priorizam a memorização em vez da compreensão conceitual.

“Na história do Brasil, sempre que se falou na alfabetização na idade certa, o foco sempre foi na leitura e nunca se pensou na alfabetização matemática. Essas duas coisas precisam andar juntas: crianças alfabetizadas nas duas linguagens aprendem muito melhor ao longo do tempo”, defende Katia Smole.

Um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta fragilidades na formação inicial de professores no Brasil, muitas vezes desvinculadas da prática pedagógica real. Para Priscila Cruz, medidas recentes do governo, como a proibição de licenciaturas 100% a distância, caminham na direção correta, mas precisam de aprimoramento.

Países como Singapura — segundo colocado no ranking do Pisa — demonstram que mudanças curriculares focadas no raciocínio, na solução de problemas e na confiança do estudante trazem resultados expressivos.

Impacto direto na economia

O fortalecimento da disciplina guarda relação direta com o crescimento econômico do país.

“A tecnologia que move a economia hoje é feita de matemática. Para que o Brasil possa criar e não apenas consumir essas tecnologias, como a IA, nós precisamos garantir que pessoas aprendam matemática e desenvolvam essas habilidades”, argumenta Nara Bobko.

Pesquisa da consultoria Deloitte aponta que atividades ligadas à matemática respondem por 10% dos empregos e 16% do Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido, tendência observada também em nações como Holanda, França, Austrália e Espanha.

No Brasil, levantamento do Itaú Social divulgado no final de 2022 revelou que a matemática respondia por 7,4% dos postos de trabalho e gerava 4,6% do PIB nacional, o equivalente a cerca de R$ 44 bilhões anuais. Caso o país alcançasse patamares de economias avançadas, o estudo estima um acréscimo anual de R$ 1,3 trilhão ao PIB.

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