O mal se combate com o bem e foi o que fez o chef Júlio Ritta, após a discussão que teve nas redes sociais com o deputado bolsonarista Níkolas Ferreira (PL-MG). O Júlio serve comida a pessoas necessitadas há 11 anos em Porto Alegre (RS) e contou que sofreu um boicote: perdeu doações e patrocinadores depois que anunciou voto no presidente Lula. O deputado viu e fez um post nas redes ironizando a perda.
Níkolas perguntou por que Júlio aceitava dinheiro de pessoas que ele criticava politicamente e debochou: “Afinal, por que receber o dinheiro de quem é miliciano, extremista, fascista e genocida? Coerência, né? Simples”, escreveu o deputado. E a resposta do cozinheiro veio com amor e atitude.
Neste sábado, 31, Júlio serviu picanha, risoto, salada, suco e sobremesa para mais de 500 pessoas em situação de vulnerabilidade social, em Porto Alegre (RS) e gravou vídeo mostrando o banquete feito com equipe do Cozinheiros do Bem preparou: “Mais de 500 pessoas hoje aqui no Viaduto da Conceição não vão precisar meter a mão numa lata de lixo pra comer. E essa é a porra da nossa vitória!”. O Júlio Ritta há onze anos serve comida nesse viaduto, em Porto Alegre”. O vídeo está com quase 3 milhões de visualizações.
A polêmica e as críticas
A confusão começou após o cozinheiro denunciar a desistência de empresários e doadores que ajudavam o Cozinheiros do Bem. Segundo ele, a retirada do apoio ocorreu após declarar voto em Lula, reeleito presidente no segundo turno das eleições, em 25 de outubro. Entre os compromissos cancelados estavam o pagamento das passagens do rapper MV Bill, convidado para a festa de 11 anos do projeto, marcada para 14 de novembro, e doações de lenha e grelhas para churrasqueiras.
Nikolas Ferreira compartilhou o vídeo do cozinheiro e questionou por que os patrocinadores deveriam continuar colaborando com alguém que, segundo o deputado, havia ofendido eleitores da direita. O cozinheiro respondeu inicialmente nas redes sociais com a frase “Late mais alto, moleque”. Depois, gravou o vídeo diante da equipe, questionando a postura do parlamentar e criticando quem usou o resultado das eleições para suspender as doações.
O banquete e a provocação
O chef devolveu ironia com ironia: “Ao invés de propagar fake news, viajar com jatinho emprestado, eu resolvi servir a tal da picanha que vocês falavam que era picanha do Lula. Se o Lula serve ou não, não tô nem aí, meu irmão”, disse. Ele ainda provocou Níkolas a também ajudar quem passa fome: “Eu acho que tu ainda tava nas fraldas quando eu comecei a servir comida nesse viaduto. Quem sabe tu não faz o mesmo? Tu é novo ainda, tem muito que aprender”. O projeto já distribuiu mais de 8 milhões de marmitas em 11 anos de atuação.
No vídeo publicado no Instagram, Júlio apresentou as refeições preparadas pela equipe, que incluíam risoto à parisiense, picanha ao molho demi-glace, tomate-cereja, alface picada, suco gelado e cuca. Um dos momentos mais contundentes foi quando questionou o parlamentar sobre valores cristãos: “Então tu gosta tanto de falar sobre dados, hein, cristão? O que o teu Cristo faria se estivesse vivo hoje? Andaria só com quem tem dinheiro? Os empresários que vocês disseram que eu ataquei? Ou iam estar aqui embaixo desse viaduto?”.
Em seguida, respondeu: “O meu Cristo é esse. E ele não carrega uma cruz. Ele carrega um monte de cooler cheio de comida.”
Histórico e impacto
Aos 42 anos, Júlio Ritta é formado em Gastronomia pelo Instituto Gato Dumas, na Argentina. Nascido em Curitiba (PR), trabalhou em restaurantes de Porto Alegre e participou do programa Chef de Alto Nível, da TV Globo. O Cozinheiros do Bem começou em 2015 e conta com a participação de sua esposa, Patrícia, na direção.
O projeto atuou fortemente durante a pandemia, servindo 96 comunidades em 36 cidades do interior gaúcho, e nas enchentes de 2024, atendendo milhares de pessoas em abrigos da capital e de Canoas. Além de patrocinadores, Júlio relatou a perda de mais de 100 mil seguidores, mas a repercussão elevou seu perfil para mais de 1,5 milhão de seguidores, enquanto o Cozinheiros do Bem ultrapassou 993 mil.
O aniversário de 11 anos da iniciativa segue confirmado para 14 de novembro, mantendo a promessa de continuar distribuindo refeições enquanto houver necessidade.
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