Bolsa antes da eleição: vale carregar ações do último pregão até segunda-feira?

Bolsa antes das eleições: vale a pena carregar ações no fim de semana?

Economia

A última sessão de negócios antes do segundo turno das eleições coloca os investidores da Bolsa diante de um dilema estratégico: manter posições compradas em ativos e atravessar o fim de semana com o mercado fechado ou zerar as operações para evitar surpresas no início da próxima semana.

Manter os papéis na carteira pode garantir ao investidor a captura de um movimento positivo logo nos primeiros minutos do pregão seguinte. Por outro lado, a escolha traz o risco de não conseguir realizar ajustes caso as expectativas sofram reviravoltas durante o período de descanso. Enquanto operações de day trade são encerradas na própria sexta-feira, as posições de swing trade enfrentam riscos adicionais após o fechamento da B3.

Um complicador adicional é a alta expressiva acumulada por diversos papéis voltados à economia doméstica entre o primeiro e o segundo turno, o que significa que boa parte das expectativas do mercado já pode estar precificada.

Cuidados com o tamanho da posição e alavancagem

Para Victor Hugo Riffel, head da Mesa Trader da Ável, a principal mudança no último pregão antes da eleição deve estar no tamanho da posição. Quanto maior a volatilidade, maior tende a ser o valor financeiro colocado em risco com a mesma quantidade de ações ou contratos.

“Se a volatilidade dobra e eu mantenho a mesma mão, meu risco dobra junto”, afirma.

Riffel recorre ao conceito de VaR (Value at Risk, ou valor em risco), usado para estimar quanto uma posição pode perder em determinado cenário. Na prática, a leitura é simples: se o mercado começa a oscilar mais, manter exatamente a mesma exposição de um pregão comum aumenta o risco da operação.

Eduardo Tellechea Cairoli, CEO e fundador da Privatto Multi Family Office, também recomenda separar convicção de exposição. Para ele, acreditar fortemente em determinado resultado não significa que o tamanho da posição deva aumentar na mesma proporção.

“A sexta-feira não deve ser encarada como um dia de maximização de exposição, mas de seleção das melhores assimetrias”, afirma.

O cuidado vale também para a concentração. Ter Banco do Brasil, uma construtora e outra ação ligada à queda dos juros pode parecer diversificação, mas os papéis podem reagir simultaneamente caso haja uma mudança brusca na percepção sobre risco fiscal ou juros.

O perigo do gap de abertura

O maior problema para quem pretende atravessar a eleição posicionado é o chamado gap de abertura — quando uma ação começa o pregão seguinte muito acima ou abaixo da cotação anterior.

Entre o fechamento de sexta e a abertura de segunda não existe negociação na B3. Isso reduz a eficácia de uma ferramenta bastante usada para limitar prejuízos: o stop loss, ordem programada para tentar encerrar a posição quando o preço atinge determinado nível.

“O stop não protege no gap”, resume Riffel.

Se uma ação fechar a R$ 20 e reabrir a R$ 18, por exemplo, não haverá negócios entre esses valores durante o fim de semana. A ordem de saída só poderá ser executada quando o mercado voltar a funcionar, no primeiro preço disponível.

É por isso que Jason Vieira, economista-chefe da Lev, adota uma postura cautelosa para este fim de semana.

“Eu não carregaria agora uma posição”, afirma.

O custo das opções na proteção da carteira

Uma forma de limitar previamente parte desse risco é recorrer ao mercado de opções. Uma opção comprada dá ao investidor um direito sobre determinado ativo e, para quem compra o contrato, a perda máxima fica limitada ao valor pago pelo prêmio. Calls são opções de compra; puts são opções de venda e podem ser utilizadas, entre outras estratégias, para proteger uma carteira contra quedas.

No entanto, atravessar um período eleitoral protegido exige desembolso financeiro. Antes do primeiro turno, levantamento do InfoMoney mostrou que as opções próximas do preço do ativo carregavam volatilidade implícita — medida da oscilação esperada embutida nos contratos — de aproximadamente 39% no BOVA11, 47% em Petrobras e 66% em Banco do Brasil. Quanto maior a volatilidade implícita, maior tende a ser o prêmio cobrado pelas opções, mantidas as demais condições.

Após as urnas, grande parte desse prêmio desapareceu com o chamado volatility crush, registrando quedas para cerca de 25%-26% no BOVA11, 34%-36% em Petrobras e 40%-42% em BBAS3.

“Nas opções, acertar a direção não garante lucro”, observa Cairoli.

O peso do “trade eleitoral” nos preços atuais

Empresas ligadas à economia doméstica, small caps, varejistas e construtoras avançaram fortemente durante parte desse período. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Investimentos, destaca que algumas ações de menor capitalização chegaram a acumular ganhos de 30%, 40% ou até 50%.

“Mais do que acertar quem ganha, o trader precisa saber quanto do resultado já está no preço. E hoje, uma boa parte está”, afirma Riffel.

Cairoli chama atenção para o conhecido movimento de “buy the rumor, sell the news”, ou “compre no boato e venda no fato”: os investidores antecipam determinado cenário, os preços sobem e, quando ele finalmente se confirma, parte do mercado aproveita para realizar lucros.

“O mercado sobe antecipando o resultado e realiza lucros após a confirmação”, afirma.

Ibovespa versus ações individuais

O histórico das eleições passadas demonstra que o comportamento do índice nem sempre reflete o desempenho individual dos papéis. Em 2018 e 2022, ativos como Petrobras e Banco do Brasil registraram variações distintas na comparação entre o primeiro e o segundo turno.

Para Perretti, o histórico oferece mais pistas sobre a volatilidade do que sobre a direção exata dos preços.

“A maior clareza que a gente tem é a expectativa em relação à volatilidade do mercado.”

Conclusão sobre carregar posições

Carregar ativos durante o fim de semana eleitoral pode ampliar ganhos em caso de reações positivas, mas impõe riscos difíceis de controlar antes da abertura do próximo pregão. Reduzir alavancagem, diminuir o tamanho das posições e utilizar instrumentos de proteção são alternativas recomendadas por especialistas para preservar o capital.

“Quanto estou disposto a perder se a abertura de segunda-feira vier na direção contrária?”, resume a principal dúvida que os investidores devem ponderar.

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