Apesar da reação negativa dos investidores nesta segunda-feira (26), a Bolsa brasileira registrou avanços expressivos durante os três primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, impulsionada por períodos de forte expansão econômica. No entanto, para o quarto mandato, analistas alertam que o principal desafio será sustentar esse bom desempenho em meio a um cenário de atividade desacelerada e urgência no corte de gastos fiscais.
Historicamente, as altas do Ibovespa nas gestões passadas do petista decorreram de fatores específicos. Na década passada, o motor principal foi o superciclo das commodities. Já no ciclo mais recente, o atrativo veio do aumento do interesse estrangeiro por ativos de países emergentes, impulsionado pela escalada de tensões e conflitos geopolíticos globais.
Desempenho histórico nos mandatos
Levantamentos baseados em dados da Bloomberg indicam que, entre 2003 e 2006 (primeiro mandato), o Ibovespa disparou 294%. O índice superou a alta de 212,4% registrada no mesmo período pelo MSCI Emerging Markets — principal indicador global para mercados emergentes, liderado por Taiwan, China, Coreia do Sul e Índia.
Essa fase foi marcada pelo forte apetite chinês por commodities, após a entrada do país asiático na OMC (Organização Mundial do Comércio) em 2001, o que também provocou uma queda de 39,6% no preço do dólar frente ao real.
O movimento de valorização se repetiu no segundo mandato, embora em ritmo mais brando, com o índice brasileiro acumulando ganho de 55,8% (superando os 26,1% do MSCI) e desvalorização cambial de 22,2%.
Já no terceiro mandato, o Ibovespa avançou 60,9% de janeiro de 2023 até a referida segunda-feira (26), ficando ligeiramente abaixo dos 63,4% do índice global de emergentes. Na mesma base de comparação, a moeda norte-americana subiu 2,15%. Se o cálculo considerar o fechamento da última sexta-feira (23), antes da mudança de humor do mercado em função do segundo turno, a alta acumulada do indicador nacional chega a 86%.
“A valorização do Ibovespa durante o governo Lula 3 foi impulsionada por fatores externos e internos. As guerras e as sanções à Rússia reduziram as opções de investimento internacional, aumentando a atratividade relativa do Brasil entre os mercados emergentes”, aponta Einar Rivero, CEO da consultoria Elos Ayta.
O especialista acrescenta que, no front doméstico, o mercado acionário recebeu suporte das expectativas de cortes na taxa básica de juros (Selic) e, em momentos recentes, da projeção de vitória de Flávio Bolsonaro, fator que estimulou apostas em uma guinada na política fiscal.
O cenário para o quarto mandato
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o histórico positivo da Bolsa sob a liderança de Lula é reflexo direto do dinamismo econômico daqueles anos.
“Os três governos Lula tiveram crescimento econômico relativamente alto: Lula 1 com 3,5%, Lula 2 com 4,7% e Lula 3 com 2,7%. Os 12 anos tiveram média de 3,6% de crescimento. Isso conta para a Bolsa e foi natural vermos um desempenho positivo”, avalia.
Contudo, ele faz ponderações importantes sobre o futuro: “Lula 4 tende a ter a pior média de crescimento dos seus governos pelo desafio fiscal do momento, e isso tende a se refletir numa bolsa crescendo menos nos próximos anos também.”
Projeções coletadas pela pesquisa Focus do Banco Central mostram que o PIB brasileiro deve avançar 1,80% no presente ano e 1,31% no próximo. As expectativas para a taxa Selic apontam encerramento em 13,25% ao ano no atual exercício e em 11,75% ao ano seguinte.
Panorama em outras gestões
O comportamento da Bolsa em administrações passadas também revela diferentes ciclos econômicos. Os mandatos de Fernando Henrique Cardoso foram positivos para o mercado acionário após a implantação do Plano Real: o Ibovespa subiu 55,8% entre 1995 e 1998, e avançou outros 66% de 1999 a 2002.
Em contrapartida, o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014) rompeu com a bonança anterior: o Ibovespa despencou 27,8% (pior que a queda de 16,9% do MSCI) e o dólar disparou 59,9%. Já no segundo mandato, após o impeachment em 2016 e a ascensão de Michel Temer ao poder, o índice saltou 75,7%, enquanto o MSCI subiu apenas cerca de 1%.
Por fim, durante a administração de Jair Bolsonaro (2019-2022), o principal índice acionário do Brasil acumulou alta de 24,8% (ante recuo de 0,97% do indicador de emergentes), ao passo que a moeda norte-americana valorizou 36,1%.
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