Bastava caminhar por apenas cinco minutos entre a multidão que aguardava o papa Leão 14 na sexta-feira (6) para notar bandeiras verde e amarela e escutar o idioma português. Foram milhares de fiéis do Brasil que atravessaram a divisa territorial para injetar entusiasmo na chegada contida do líder religioso ao território uruguaio, conhecido por ser a nação mais secularizada da América Latina.
Conforme dados da Direção Nacional de Migração do Uruguai, que contabiliza os viajantes sem distinção de nacionalidade, mais de 47,5 mil pessoas ingressaram no país entre quinta-feira (5) e o meio-dia de sábado (7), data marcada pela vigília de oração no Estádio do Centenário, situado em Montevidéu. Em períodos normais de fim de semana, a média de entrada costuma ser de 14 mil indivíduos, de acordo com registros do próprio órgão em 2024.
O fluxo intenso já era amplamente antecipado. Para muitos habitantes da região sulista brasileira, a oportunidade se mostrou muito mais viável do que uma possível passagem do pontífice pelo Brasil, roteiro que normalmente ficaria restrito a grandes centros urbanos — como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília — e cidades de forte apelo devocional, a exemplo de Aparecida.
Diante disso, o governo local intensificou o efetivo de servidores para otimizar os trâmites imigratórios em pontos específicos desde a última quinta-feira, além de aplicar restrições temporárias ao tráfego de cargas em duas pontes que fazem fronteira com a Argentina.
Organização das caravanas brasileiras
Paróquias, dioceses e coletivos religiosos da região sul começaram os preparativos em agosto, logo após o Vaticano confirmar a passagem do pontífice pelo Uruguai, marcando o fim de um jejum de quase quatro décadas sem visitas papais ao país.
O padre Douglas Kaefer Klug, vinculado à Diocese de Uruguaiana, liderou a montagem de uma das caravanas. “Se ele viesse ao Brasil, para nós certamente seria inviável, porque provavelmente ele iria para o centro do país”, afirma o religioso, que organizou 175 pessoas em quatro ônibus para ir a Paysandú, a 340 km da cidade gaúcha.
Foi nessa localidade que o santo padre celebrou sua primeira missa dentro do roteiro de 12 dias pela América do Sul, itinerário que também contempla Peru e Argentina. Durante o ato litúrgico, Leão 14 apelou para que a região supere rivalidades e estimulou as nações a priorizarem a “construção de pontes”, reforçando o apelo diplomático feito no dia anterior.
Fiéis enfrentaram o relento e chuvas fortes durante a noite até a chegada do líder católico. Ele entrou para a história como o primeiro pontífice a visitar a cidade, que funciona como um relevante polo econômico no noroeste uruguaio.
Roteiro e reflexões sobre a secularização
A cerimônia de abertura, realizada na sexta-feira, ocorreu na Praça da Independência, no centro de Montevidéu. O público ocupou somente metade da área disponível, permitindo que atrasados chegassem perto das grades de contenção com facilidade.
No local estava Thiago Araújo, que estimou a presença de mais de 300 fiéis da Arquidiocese de Pelotas. Sob sua coordenação, o Movimento de Emaús mobilizou mais de 200 pessoas distribuídas em quatro ônibus, após uma jornada de dez horas na estrada, conforme relatou.
“Ver o papa é um evento imperdível”, afirma ele. “A gente acredita que essa viagem para o Uruguai vá dar um ardor novo para a Igreja aqui.” O grupo seguiu na manhã de domingo (8) rumo a Florida, cidade situada a cerca de uma hora e meia de Montevidéu, onde o papa presidiu sua segunda eucaristia na viagem.
No período da tarde, o líder católico seguiu viagem para Buenos Aires, capital argentina, onde teve encontro agendado com o presidente Javier Milei na Casa Rosada. A expectativa era de uma acolhida mais fervorosa na Argentina, país que aguardou inutilmente a visita do compatriota Francisco, falecido em abril do ano passado sem retornar à terra natal.
Atualmente, o Uruguai figura como o único país da região sem maioria cristã declarada, segundo levantamento do Pew Research Center. Dados da consultora Cifra apontam que os católicos representam 32,5% dos uruguaios, sendo que 23,7% se declaram não praticantes, enquanto agnósticos e ateus somam 28,2%.
“Estar com vocês esta noite me permite compartilhar uma reflexão sobre algo que muitas comunidades cristãs vivenciam: o avanço da secularização e de uma indiferença religiosa cada vez mais difundida”, afirmou Leão no Estádio do Centenário a dezenas de milhares de fieis. “Em muitos lugares, a fé deixou de ser transmitida com a naturalidade de gerações anteriores, e cresce o número daqueles que passam boa parte de sua vida sem uma relação habitual com a Igreja nem com a prática religiosa.”
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