O CEO da Audi, Gernot Döllner, enfrenta uma forte onda de críticas e pressão política na Alemanha após participar de um comício de Donald Trump na Geórgia no último sábado (24). Durante o evento, o executivo subiu ao palco a convite do presidente americano para anunciar a construção da primeira fábrica da marca em solo norte-americano, em Macon, com um investimento de US$ 4 bilhões (R$ 20,1 bilhões) e a promessa de gerar 4.500 empregos do outro lado do Atlântico. A decisão gerou reações severas de sindicatos, ministros e até pedidos de renúncia no país europeu.
“Quando o presidente americano lhe faz um convite, você aceita o convite”, justificou-se Döllner em conversa com jornalistas, enquanto um modelo Q9 dourado ficava em exibição na porta do evento na cidade de Perry. Contudo, a atitude violou o manual de conduta interno da Audi, assinado pelo próprio executivo, que exige neutralidade política em eleições, a menos que haja deliberação prévia da direção. Representantes dos trabalhadores só foram notificados com menos de 48 horas de antecedência, segundo o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung.
Repercussão negativa e conflitos trabalhistas
Para Daniela Cavallo, representante dos trabalhadores no Conselho do grupo VW, Döllner deveria “se envergonhar profundamente”. Cavallo criticou o ambiente do comício, marcado por “vários minutos de racismo, sexismo, xenofobia, transfobia e desprezo pela democracia”, e completou: “Nossa direção se deixou transformar em marionete no espetáculo de propaganda de uma figura política extremamente questionável, que viola praticamente todos os nossos valores corporativos.”
Em carta aos funcionários, Döllner admitiu que sua presença gerou “questionamentos e incompreensão”, defendendo o projeto voltado para a América do Norte, que representa o segundo maior mercado premium do mundo — atrás apenas da China. Olaf Lies, governador da Baixa Saxônia, declarou: “Um evento de campanha não é o lugar apropriado para anunciar investimentos”. Christian Benner, chefe do sindicato IG Metall, classificou a conduta como “constrangedora”, embora tenha ressaltado: “Nós, de fato, estimulamos o grupo a conquistar novos mercados e isso inclui, naturalmente, a América do Norte. Mas, ao mesmo tempo, precisamos de uma perspectiva segura para os funcionários das fábricas locais. As duas coisas não são necessariamente contraditórias.”
Críticas ambientais e o futuro da montadora
O ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, criticou duramente a aposta da montadora em modelos como o Q9 — veículo com 5,31 metros de comprimento e 2,21 de largura voltado ao público americano. “A Audi aposta no cavalo errado”, afirmou, complementando: “Enquanto grande parte do mundo caminha rumo à tecnologia superior da eletromobilidade, a Audi aposta em combustíveis fósseis. Além das circunstâncias, no mínimo, desagradáveis que envolvem esse anúncio, também é preciso ter dúvidas sobre a viabilidade dessa decisão a longo prazo.”
A nova planta tem previsão de começar a produzir em 2030, mesmo ano em que a Audi planeja encerrar a produção na fábrica de Neckarsulm, berço de seus modelos mais caros, como parte de uma reestruturação do grupo Volkswagen que prevê cortes de ao menos 15 mil funcionários. Nos últimos três anos, Döllner já fechou uma planta na Bélgica e demitiu 7.500 empregados na sede de Ingolstadt.
A decisão de investir nos EUA também passa por um cálculo pragmático: ao contrário das concorrentes Mercedes e BMW, a Audi não possui fábricas nos EUA e tenta driblar tarifas impraticáveis criadas por Trump para carros importados, após negociações recentes com a gestão americana, conforme o The Wall Street Journal. No entanto, o executivo ainda precisará convencer o mesmo Conselho que agora critica sua postura para aprovar formalmente o projeto na Geórgia.
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