Deficitário e maravilhoso

Por que o futebol feminino não pode ser medido apenas pelo lucro

Esportes

O futebol feminino voltou ao centro das discussões esportivas sob a ótica restrita da contabilidade financeira. O argumento central de análises recentes baseia-se em um levantamento de que 162 das 167 partidas da Série A1 deste ano registraram déficit operacional, o que significa que o custo para sediar os jogos superou a arrecadação das bilheterias. A preocupação gira em torno do rombo acumulado de R$ 3,4 milhões — montante que, em perspectiva, equivale a menos do que Neymar embolsa mensalmente em sua atuação como jogador e gestor do Santos.

Além do balanço deficitário, aponta-se com frequência que o grande público desconhece a artilheira da recém-finalizada elite feminina. Ocorre que tal desconhecimento é idêntico em relação aos goleadores de competições masculinas de peso, como a Série B. Esses questionamentos ganham força justamente a menos de um ano da realização da Copa do Mundo feminina em território brasileiro.

Como consequência direta desse tipo de enfoque, reacendem-se na internet manifestações abertamente preconceituosas contra as jogadoras, incluindo frases como “(O futebol feminino) Não tem graça. Não adianta.” e “É uma pena, mas há coisas que não emplacam mesmo.”.

Dois pesos e duas medidas no futebol nacional

O problema central de julgar a modalidade apenas pelo retorno financeiro imediato é a ausência de propostas estruturais. Se o deficit operacional fosse critério de eliminação sumária, boa parte do futebol masculino também deveria ter as portas fechadas. Afundados em dívidas e dependentes de patrocínios de casas de aposta, diversos clubes das Séries A, B, C e D amargam borderôs no vermelho rotineiramente. Equipes como Red Bull Bragantino, Mirassol e Vitória frequentemente geram prejuízo aos cofres ao atuarem como mandantes.

A expectativa de que o futebol feminino alcance a autossuficiência de forma repentina desconsidera a construção histórica da categoria. A dependência de investimentos dos clubes continuará sendo necessária pelo tempo que for preciso, inclusive após o Mundial no país, porque o esporte não se resume a margens de lucro.

Coincidentemente, o descontentamento sobre a sustentabilidade das mulheres costuma ecoar com mais força entre torcedores homens cujos times enfrentam fases turbulentas. Um exemplo claro ocorreu no desfecho da Série A1 de 2026: enquanto São Paulo e Corinthians protagonizavam a decisão da taça — vencida pelo Tricolor —, ambos os clubes viviam momentos dramáticos na luta contra o rebaixamento no Brasileirão masculino.

O reflexo das crises masculinas na categoria feminina

A vulnerabilidade dos projetos esportivos voltados às mulheres não é nova. Em 2010, durante a apresentação de Marta no Santos, a então goleira do clube e da seleção brasileira, Andreia Suntaque, resumiu a fragilidade estrutural da modalidade ao ser elogiada pelo investimento santista: “Que nada”, afirmou ela na ocasião. “É só o time masculino ir mal que eles cortam tudo.”

Esse padrão segue em vigor. Após o rebaixamento de sua equipe masculina em 2025, o Fortaleza extinguiu as atividades do time feminino, justificando a decisão por “ausência de verbas específicas e incapacidade financeira para manter a modalidade nos padrões exigidos”. Manter um departamento feminino consome por volta de 2% — ou até menos — da receita gasta com o futebol masculino.

Um investimento social inadiável

Mesmo se o argumento financeiro tivesse respaldo, a matemática não pode suplantar o papel social do esporte. O incentivo contínuo ao futebol feminino atrai uma parcela que compõe 51% da população brasileira para as arquibancadas e para o consumo esportivo, beneficiando inclusive o ecossistema masculino. Mais do que retorno contábil, trata-se de um dever moral e de reparação histórica após décadas marcadas por proibição, preconceito e apagamento.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *