Design automóvel tem um problema chamado retro

Salão de Paris revela que indústria automóvel vive crise de criatividade

Automóveis

O automóvel que mais atenções despertou no Salão de Paris de 2026 foi um Citroën 2CV. Não o original de 1948, mas a sua reinterpretação para o século XXI. Agora é elétrico, não faltam um ecrã e várias modernices que se esperam de um automóvel de hoje. Mas o que verdadeiramente fez virar cabeças foi a sua imagem. A imagem de um automóvel com quase 80 anos.

Não esteve sozinho. A FIAT recuperou a memória do Multipla original com o Multiplina, a Renault revisitou o Espace e o 8 Gordini, a Alpine ressuscitou o A310 e a Audi trouxe de volta o A2. Na maioria dos casos são protótipos, é certo, mas nem todos ficarão por exercícios de estilo. O padrão é evidente. A nostalgia foi, talvez, a maior protagonista de Paris. E isso começa a ser motivo de preocupação.

A indústria automóvel, sobretudo a europeia, está a ficar como Hollywood: parece já não saber fazer outra coisa senão remakes. A fórmula garante receitas, mantém as portas abertas, mas também revela um preocupante beco criativo.

O passado tornou-se o nosso lugar seguro

O revivalismo automóvel não é uma novidade. O Volkswagen New Beetle, o MINI da BMW e o FIAT 500 demonstraram como recuperar um ícone podia ser uma excelente estratégia comercial. Mas há uma diferença entre recuperar ocasionalmente um modelo histórico e transformar a nostalgia numa estratégia de sobrevivência.

Vivemos tempos conturbados, é certo. Há instabilidade económica e energética, guerras a decorrer e passámos por uma pandemia. Talvez não seja coincidência que, perante um futuro cada vez mais incerto, procuremos conforto num passado que conhecemos. Ou, pelo menos, na versão idealizada que construímos dele.

As marcas perceberam-no. E agora que precisam de convencer milhões de europeus a aderir à eletrificação, parecem ter encontrado uma receita ganhadora: embrulhar uma tecnologia que muitos ainda olham com desconfiança no cobertor confortável da nostalgia. Funciona. Basta olhar para o sucesso do Renault 5 e para a atenção que o novo 2CV conseguiu concentrar em Paris.

E compreendo o fascínio. Muitos destes automóveis recuperam precisamente aquilo que parece ter desaparecido do design automóvel contemporâneo: simpatia, personalidade e uma identidade que não depende de entradas de ar gigantes (muitas vezes falsas), óticas agressivas, grelhas desproporcionadas ou superfícies decoradas com arestas e vincos «só porque sim».

Mas será que a resposta a um presente visualmente pobre tem de estar sempre no passado?

Quando o design fica pela aparência

Quando estudei design industrial, um dos exercícios passou por pegar num objeto banal, um corta-unhas, e desenhá-lo ad nauseam para apurar a técnica. Depois, tivemos de reinterpretá-lo como se tivesse sido criado nos anos 50, 60 e 70. Não estávamos a tentar fazer um corta-unhas melhor, que fosse mais ergonómico ou executasse melhor a sua função. Estávamos apenas a mudar-lhe a aparência para se enquadrar num determinado estilo.

Era um puro exercício de estilo. Não me estou a queixar. Afinal, designers de automóveis, de produto e industriais concebem e projetam objetos que vão ser comprados por alguém. A componente estética é fundamental. Regra geral, ninguém quer coisas feias.

Mas é aqui que começa o meu desconforto com o atual revivalismo. Design não é apenas dar uma forma bonita a um objeto. É questionar esse objeto e procurar respostas melhores para problemas reais.

O 2CV original não se tornou um ícone porque alguém decidiu desenhar um automóvel simpático. Tornou-se um ícone porque partiu de um problema concreto e encontrou uma resposta radicalmente diferente de tudo o que existia. Era acessível, útil e engenhoso. E acabou por conquistar muito mais gente do que a França rural para a qual tinha sido inicialmente projetado. Afinal, quantas pessoas é que precisavam mesmo de atravessar um terreno agrícola sem partir os ovos numa cesta?

O mesmo aconteceu, à sua maneira e com diferentes graus de sucesso, com o primeiro Mini, o Renault Espace ou o Audi A2. Eram automóveis que desafiavam convenções para responder a problemas concretos. Que procuravam fazer avançar o automóvel. É essa ambição que receio estar a desaparecer em muitas das reinterpretações modernas.

Não significa que sejam inúteis ou desprovidas de inovação. O novo 2CV também procura tornar a mobilidade elétrica mais acessível. O Audi A2 regressa com uma aposta na eficiência. Há substância nestes projetos. Mas, quando o principal argumento de uma criação é fazer-nos recordar outra, concebida há muitas décadas, alguma coisa está errada.

Onde estão os ícones do nosso tempo?

Talvez esteja a ser injusto. Afinal, o automóvel vive uma das maiores transformações da sua história. A eletrificação, o software e as novas arquiteturas oferecem oportunidades que há poucos anos pareciam impossíveis. E, no entanto, quando chega a hora de desenhar o futuro, demasiados modelos continuam a olhar pelo retrovisor.

É certo que há muitos outros que não seguem esta fórmula e alguns até têm os olhos postos no futuro. Mas ou a execução deixa a desejar — estou a olhar para ti, EQS —; ou a rutura com tudo o que uma marca representa é tão radical, como aconteceu com o Ferrari Luce e o Jaguar Type 01, que nos empurra novamente para o refúgio do passado, sempre confortável e tranquilizador. Porque a diferença pela diferença, também não é inovação.

Não estou a defender que deixem de existir novos 2CV, Renault 5 ou Alpine A310. Quero é que existam também automóveis capazes de provocar hoje o mesmo impacto que os originais provocaram no seu tempo. Carros que não precisem de pedir emprestada a identidade de outros para serem desejáveis. Carros que não sejam apenas tecnologicamente novos, mas conceptualmente novos.

O que me leva a uma pergunta que já me assaltou a mente várias vezes: daqui a 30 ou 40 anos, quais serão os ícones sobre rodas que vamos celebrar? Os automóveis que criámos neste século? Ou estaremos a celebrar, pela terceira ou quarta vez, as mesmas ideias que nasceram no tempo dos nossos avós?

O problema do retro não é olhar para trás. É deixar de olhar para a frente.

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