Companhias nacionais estão intensificando as iniciativas de recolhimento de embalagens descartadas com o objetivo de fortalecer a logística reversa, processo que assegura a destinação ambientalmente adequada dos resíduos gerados após o uso dos produtos.
No setor de cosméticos, O Boticário opera desde 2006 o programa Boti Recicla, que conta com mais de 4.000 pontos de recebimento em território nacional. Ao completar 20 anos de funcionamento, a ação destinou à reciclagem 39% das embalagens produzidas em 2025, contabilizando o envolvimento de 2,8 milhões de consumidores, de acordo com dados divulgados pela empresa.
Conforme a corporação, a quantidade de resíduos encaminhada para a reciclagem teve alta de 48% entre 2024 e 2025. O vidro lidera como o material mais recolhido, representando 36% do total, seguido pelo papel, com 28%.
Um dos diferenciais da iniciativa é o incentivo financeiro: quem devolve três ou mais frascos vazios ganha R$ 15 de desconto em aquisições acima de R$ 220. A operação ocorre em colaboração com 17 cooperativas, responsáveis por comercializar os insumos para as indústrias recicladoras. Esse fluxo engloba 700 trabalhadores na triagem dos materiais, sendo que o modelo também opera em lojas situadas em Portugal.
Luís Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário, aponta que o foco atual reside em consolidar o trabalho das cooperativas e ampliar a adesão do público. Ele destaca que o avanço de 48% no volume recolhido decorre do aprimoramento da governança e da integração da proposta ao planejamento estratégico da marca.
“Esse resultado reflete a combinação de engajamento do público, gestão operacional e fortalecimento contínuo da cadeia. O sucesso de um programa de logística reversa exige integrar conveniência para o consumidor, conscientização e capacidade para processar volumes crescentes”, diz.
O executivo pontua que a meta central é transformar os resíduos em novas embalagens. Artigos de difícil reciclagem, a exemplo de restos de maquiagem, isopor e plásticos com resinas misturadas, são convertidos em chapas voltadas a projetos arquitetônicos e mobiliário. Segundo a empresa, 142 unidades possuem móveis fabricados com plástico descartado, totalizando 147 toneladas de detritos reaproveitados.
“Diante da complexidade da cadeia de reciclagem no Brasil, seguimos investindo no aprimoramento operacional, na qualificação de parceiros e na rastreabilidade dos materiais para garantir uma contribuição contínua para a economia circular”, afirma, em alusão ao sistema em que os insumos retornam ao ciclo produtivo para gerar novos itens.
Panorama da economia circular no Brasil
Em âmbito geral, o país apresenta índices desfavoráveis nesse indicador: apenas 1,3% das matérias-primas consumidas passam por reutilização, ao passo que a média global alcança 6,9% de reaproveitamento, conforme aponta o levantamento Circularity Gap Report, elaborado pela instituição internacional Circular Economy em conjunto com a consultoria Deloitte.
A Natura, concorrente direta, também expandiu a coleta de recipientes por meio do NaturaRecicla, lançado em 2020. Em outubro deste ano, a organização estendeu a operação para todas as unidades físicas no país. Nessa dinâmica, o consumidor que entrega três embalagens de qualquer marca obtém R$ 15 de desconto em compras a partir de R$ 150.
“Em 2025, a Natura recuperou 17,9 mil toneladas de embalagens pós-consumo por meio do programa Elos, que promove uma rede de responsabilidade compartilhada ao conectar a Natura, cooperativas, recicladores e fabricantes em torno da logística reversa e do fortalecimento da cadeia de reciclagem”, diz Ângela Pinhati, diretora de sustentabilidade da companhia.
A marca mantém convênios com 53 cooperativas, além de outras 11 exclusivas vinculadas ao NaturaRecicla. No total, a atividade mobiliza mais de 3.000 cooperados.
“O engajamento dos consumidores é parte importante dessa estratégia. A Natura observa que os participantes das iniciativas de logística reversa visitam as lojas físicas com maior frequência em comparação aos demais consumidores”, afirma Pinhati.
No ano anterior, a fabricante incorporou 30% de plástico reciclado pós-consumo em todas as embalagens comercializadas na América Latina, antecipando-se às exigências estabelecidas pelo decreto federal do plástico.
Avanços na coleta de cápsulas de café
No segmento de bebidas, a Nespresso disponibiliza 400 pontos de coleta de cápsulas de café no Brasil, além de aceitar o descarte por via postal. Em agosto, a companhia passou a viabilizar a devolução de itens usados no momento da entrega domiciliar de pedidos realizados pelo site ou aplicativo oficial. A modalidade atende moradores da capital paulista e da região metropolitana.
“Nesta primeira fase, mais de 22 mil CEPs passam a contar com a solução, que torna o descarte correto mais simples e integrado à jornada de compra”, diz Marina Gargiulo, gerente de branding, comunicação e sustentabilidade na Nespresso Brasil.
A empresa não divulga a taxa de reciclagem das cápsulas no país nem a volumetria exata coletada. O índice mundial situa-se em aproximadamente 33%, com a meta de atingir 50% até 2030.
“O que garantimos é que a empresa trabalha continuamente para ampliar o engajamento dos consumidores na logística reversa e economia circular das cápsulas de alumínio”, afirma Gargiulo.
Os resíduos recolhidos são direcionados à unidade de reciclagem da Nespresso situada em Valinhos (SP), operada em conjunto com a Crivellaro Ambiental. O alumínio recuperado retorna à indústria siderúrgica para atuar como matéria-prima na fabricação de bicicletas, canetas e bisnagas de cremes para as mãos da linha Natura Ekos Castanha, enquanto a borra de café é convertida em biometano, energia de matriz renovável.
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