Era uma vez nossa família

Da tolerância à ruptura: como o extremismo dividiu famílias

Educação

Ao longo de seis décadas de história política recente, a alternância entre derrotas amargas e triunfos eleitorais sempre fez parte da rotina dos lares brasileiros sem provocar a destruição dos laços afetivos. Antigamente, rivalidades entre simpatizantes de Paulo Maluf, apoiadores de Jânio Quadros ou entusiastas de Fernando Collor geravam provocações em almoços de domingo, mas quase nunca terminavam em desagregação comunitária. As disputas partidárias conviviam com a tolerância cotidiana.

As divergências entre petistas, tucanos e peemedebistas não costumavam afastar parentes. Com o tempo, as administrações do PT assumiram contornos de centro-esquerda na prática, permitindo lucros históricos aos grandes bancos, repasses bilionários em subsídios ao agronegócio e o avanço das concessões privadas. Em contrapartida, a direita tradicional também mantinha a concepção de um poder público atento às demandas elementares da população.

A inflexão radical e a nova dinâmica do ódio

Esse panorama sofreu uma transformação radical com a emergência da ultradireita, impulsionada pelas frustrações diante de promessas não atendidas do capitalismo e amplificada pelas redes digitais. Esse movimento introduziu um vocabulário de hostilidade explícita, personificado na frase “Vamos fuzilar a petralhada”, proferida enquanto seu autor simulava atirar com um tripé, além de declarações que relativizavam os crimes da ditadura e prestavam homenagem explícita a figuras como o torturador Ustra.

Essa mesma corrente fundamentou as manifestações contra as urnas vistas em 8 de janeiro de 2023. Trata-se da lógica compartilhada internacionalmente por Donald Trump, que elogia a agilidade da apuração apenas quando sai vitorioso e semeia narrativas de conspiração se o resultado lhe for desfavorável. Tal postura destoa até mesmo de práticas antigas atribuídas a Maluf, associado ao dito popular “que rouba, mas faz”. Posteriormente, a tentativa de Aécio Neves de deslegitimar juridicamente a eleição de 2014 serviu como estopim para a corrosão institucional subsequente.

Fratura social e o papel do fundamentalismo

Os reflexos dessa postura extremista foram implacáveis nos ambientes privados. Amizades construídas na infância, condomínios e escolas perderam a capacidade de estabelecer diálogos mínimos. Essa crise foi aprofundada pelo uso instrumental de dogmas religiosos, que transformaram a competição política em uma cruzada do “cidadão de bem” contra inimigos supostamente malignos, tratando adversários como hereges e convertendo militantes em figuras sagradas.

Nesse ambiente, convenções básicas de convivência deixaram de ser respeitadas por adeptos de um proselitismo constante. Opiniões são impostas sem convite e qualquer pensamento divergente é prontamente anulado por ataques pessoais, em detrimento da discussão racional de propostas. A defesa armamentista, articulada junto a setores da indústria bélica e à bancada da bala, coroa uma visão de mundo que enxerga o rival como alguém a ser eliminado, ignorando consensos científicos sobre criminalidade. Diante dessa realidade, os apoiadores desse movimento precisam reconhecer sua posição em um segundo turno no qual a direita tradicional deixou de existir.

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