“Professor, a minha mãe me disse que ser médico não é para mim.” A forma como um educador responde a uma frase como essa pode marcar a trajetória de um estudante. A constatação é o ponto de partida para entender a relevância de criar vínculos de confiança nas instituições de ensino públicas.
Na Escola Estadual Professora Sylvia Ramos Esquível, em Diadema (SP), o professor de geografia Carlos Eduardo Santos vivenciou essa situação de perto. Para ele, o papel do docente vai muito além da transmissão de conteúdos tradicionais.
“Nós nos deparamos com muitas frases como essa. E eu me vejo nesse papel de guardião educador justamente por isso: para incentivar, dar apoio e mostrar a eles que é possível chegar onde querem, com esforços. Me sinto no dever de ajudá-los, para que possam descobrir desejos e aptidões. Hoje, o cotidiano das pessoas é tão corrido que, em muitos casos, as famílias trabalham muito para tentar dar o mínimo para os filhos e, com isso, não conseguem fazer esse apoio”, relata o educador.
Carlos integra o grupo de profissionais que atuam no programa Escolaí, iniciativa da Fundação Otacílio Coser que conecta instituições de ensino e promove o desenvolvimento integral dos alunos.
O impacto das metodologias ativas e da gincana pedagógica
Desenvolvido há 20 anos em colaboração com redes públicas de ensino, o Escolaí utiliza um formato de gincana interescolar. As missões propostas desafiam os times de alunos a explorarem dimensões cruciais como autoconhecimento, autocuidado, relações comunitárias, além de aspirações profissionais e acadêmicas.
Ana Paula Carvalho, coordenadora de projetos da fundação, destaca que a proposta lúdica serve como complemento essencial ao plano pedagógico tradicional.
“O Escolaí vem para contribuir de uma forma lúdica, com situações que complementam o plano de aula do professor. Os participantes geralmente são aqueles que querem trazer a criatividade, melhorar o clima escolar e fazer a diferença. É isso que os professores guardiões são para a gente: nossos parceiros”, afirma.
Segundo a coordenadora, o engajamento dos mestres exige valorização e suporte contínuo para que eles próprios reconheçam o impacto transformador de sua atuação na vida dos jovens.
“O professor precisa ter um papel de liderança para ser uma inspiração e ter o respeito desses jovens que não acreditam em si mesmos. O professor vem como um elo e com aquele espelho que diz ‘Olha, você consegue, eu estou aqui para te ajudar’. Mas se ele está cansado e ele mesmo não acredita que faz a diferença, o retrato do jovem vai ser totalmente diferente. Então também temos um papel social de olhar para este professor e dizer ‘Você é muito bom. Com tudo que você faz, você está mudando vidas’. Isso pode ser aquela luzinha no fim do túnel para que os jovens possam fazer diferente”, pontua Ana Paula.
Práticas pedagógicas e emancipação juvenil
No cotidiano escolar, o incentivo ao protagonismo se materializa em projetos interdisciplinares. Carlos Eduardo conduziu uma iniciativa chamada Museu Vivo, focada na educação antirracista. Os estudantes investigaram figuras históricas negras e indígenas, construindo representações físicas e textuais sobre suas contribuições.
“Teve uma turma que pesquisou Nelson Mandela, criou a cela dele com o número e, quando os visitantes se aproximavam, os alunos liam trechos sobre a vida de Mandela”, exemplifica o professor.
Para ele, dar espaço para que os alunos se expressem revela talentos ocultos: “Tem alunos que você olha e só descobre essa habilidade que ele tem para falar, para se expressar, quando o projeto realmente acontece. E às vezes o próprio aluno nem sabia sobre essa habilidade. Por isso eu falo: ‘projeto é isso, é redescobrir’.”
O cuidado com quem educa
Para garantir que o suporte aos alunos seja efetivo, o programa também oferece uma rede de sustentação aos professores. A iniciativa dispõe de oficinas de comunicação, grupos de troca no WhatsApp, plantões de dúvidas semanais e visitas técnicas presenciais.
“Quando os três guardiões educadores de cada time estão juntos, procuramos olhar o programa de ações que precisam ser desenvolvidas ao longo do ano, mas também como esses professores estão. O plantão de dúvidas existe para ouvir o que eles estão fazendo, mas, ao mesmo tempo, para enxergar essa pessoa educadora, como ela está se sentindo, como nós podemos escutar e ajudá-la. Se acontece alguma coisa ou alguém passa mal e nos comunicam, por exemplo, temos um cuidado de monitorar, perguntar se está melhor. Acho que esse é um carinho que faz uma diferença para eles se manterem cada vez mais ativos no processo”, defende a coordenadora.
Pertencimento e identidade na sala de aula
No Rio de Janeiro, o professor de educação física Diego Paschoa atua como guardião educador no GET Armando Klabin. Ele utilizou as diretrizes do programa para debater diversidade étnico-racial em uma comunidade de perfil vulnerável, onde a maioria dos discentes é negra.
O projeto resultou em exposições fotográficas, desfiles com pinturas corporais inspiradas em matrizes africanas e indígenas, além da produção de um minidocumentário.
“Nós entendemos que seria legal conversar com professores negros da unidade, pessoas queridas que defendem essa bandeira da igualdade racial, da distribuição de renda e entender o que compreendem que é ser negro numa escola majoritariamente negra e o que é representatividade, até para que servisse de espelho para esses alunos”, comenta Diego.
Para o educador, romper com o tradicionalismo pedagógico é fundamental para estimular a autonomia.
“Quando a gente é estimulado a trabalhar com projeto, é justamente para sair desse tradicionalismo de sala de aula, com esse foco no professor. Eu acho que a educação pode acontecer com foco no aluno. É o que as metodologias ativas falam. É o momento em que eles vão criar, mediados pelo professor”, ressalta.
“Não é fácil fazer o aluno entender isso, mas quando ele está bem orientado e tem o apoio da escola, o trabalho acontece. Isso faz parte do processo da escola viva, uma escola que rompe com o conteudismo e com o tradicionalismo”, conclui.
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