Estudantes de medicina da Unisa, em SP, ofendem apoiadores de Lula e bolsistas após resultado eleitoral

Estudantes de medicina da Unisa ofendem colegas e nordestinos

Educação

Alunos do curso de medicina da Unisa (Universidade de Santo Amaro), em São Paulo, trocaram ofensas contra nordestinos e colegas que votaram em Lula (PT) após a vitória do presidente sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, no domingo (25). Os conteúdos foram compartilhados em um grupo de WhatsApp que reunia estudantes da instituição.

Print e vídeos obtidos detalham as mensagens enviadas principalmente no domingo e que continuaram até esta terça-feira (27). O espaço virtual de conversas contava com 984 participantes até a tarde da mesma terça-feira e havia sido criado inicialmente pelos próprios alunos para cobrar a universidade sobre os resultados do Enamed, discutir o ensino e organizar os estudantes.

A instituição de ensino foi procurada por email e por WhatsApp, mas não houve resposta até a publicação deste material. Em nota enviada aos discentes, a faculdade destacou que seu estatuto, regimento geral e normas repudiam qualquer forma de preconceito, discriminação, desrespeito ou intolerância, e que os matriculados assumem o compromisso de seguir tais princípios. A administração também pontuou que grupos de WhatsApp formados por alunos funcionam como ambientes privados e externos, sem vínculo com a faculdade, ressaltando que a instituição “não possui acesso, alcance técnico ou prerrogativa legal para monitorar, administrar ou moderar o conteúdo neles veiculado”.

De acordo com relatos de estudantes, a política não era pauta no grupo antes do término da eleição. A dinâmica mudou quando alguns membros começaram a enviar figurinhas de Jair Bolsonaro (PL), pai do candidato derrotado, dando início às hostilidades. Um dos discentes relatou que as provocações surgiram de ambas as facções, mas que os apoiadores de Flávio intensificaram os ataques direcionados a nordestinos, feministas e homossexuais. Outra aluna confirmou que a discussão política evoluiu para agressões verbais contra nordestinos, bolsistas e colegas que comercializam lanches nas dependências da faculdade.

Um dos arquivos compartilhados foi um áudio marcado pelo aplicativo como encaminhado com frequência. Na gravação, um homem profere xingamentos contra nordestinos, em especial baianos, rotulando-os como “baianada” e manifestando revolta com os votos direcionados ao PT. O material obteve pelo menos 11 reações, incluindo emojis de risada e aplausos, embora não seja possível confirmar se o autor da voz é matriculado na Unisa.

Outras mensagens escritas associaram o triunfo do Partido dos Trabalhadores a taxas de analfabetismo, a benefícios sociais e ao perfil socioeconômico dos estudantes. Houve menções a alunos beneficiários do Prouni e ao transporte público utilizado para chegar ao campus. Uma participante declarou que cessaria as compras de produtos vendidos por colegas eleitores de Lula, enquanto outro desejou vê-los comercializando itens na faculdade para custear a mensalidade.

“Só estuda gente do Prouni na Unisa porque a gente sustenta a faculdade”, escreveu um integrante, em mensagem que teve cinco reações. Outro chamou de burros os colegas que votaram em Lula e disse que isso diminuiria a concorrência pela residência médica. A mensagem teve ao menos dez reações.

O material também incluiu alusões diretas à violência. Uma aluna redigiu que desejava que os colegas sofressem assaltos, e outro participante publicou “paulada em comunista”. Uma figurinha exibida no chat mostrava um spray com o rótulo “mata verme” e a frase “sai petista”.

Memes associando o voto em Lula ao consumo de substâncias ilícitas e a práticas sexuais também circularam no chat. Diante de um alerta de que homofobia é crime, uma integrante ironizou a sigla LGBTQIA+. Em outra captura de tela, um discente chamou uma interlocutora de feia e gordinha, sugerindo que ela trancasse a matrícula.

Em uma das mensagens, que teve ao menos 15 reações, uma integrante afirmou que futuros médicos devraient conhecer as consequências do voto e criticou, com palavrão, o presidente eleito.

Reações e denúncias

Alunos do outro lado do espectro político também responderam com ataques. Uma das participantes foi tratada como lixo e nojenta. Um dos estudantes entrevistados admitiu ter participado da contenda ao enviar figurinhas e satirizar o que enxergava como posturas elitistas e xenofóbicas, optando por deixar o grupo em seguida devido ao desgaste com os comentários.

Outra discente relatou que os autores das ofensas passaram a se organizar em novas comunidades digitais, alegando que os eleitores de Lula teriam montado frentes para atacá-los, versão negada por ela. Segundo um relato, na segunda-feira (26), após a repercussão das mensagens, um estudante declarou em plena sala de aula que nordestinos são analfabetos. O cenário acadêmico foi classificado como desconfortável, marcado pela omissão das vítimas diante das provocações e pelo receio de retaliações físicas ou verbais.

Três dos estudantes ouvidos confirmaram o envolvimento na formalização das denúncias. Eles reuniram capturas de tela e uma gravação de tela contendo o áudio polêmico, encaminhando os arquivos para o canal oficial da Unisa e para as coordenações do curso, que orientaram a formalização do processo, procedimento que já foi realizado.

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