Faria Lima e governo fazem leitura seletiva da proposta de André Lara Resende, diz economista

Governo e mercado interpretam mal proposta de André Lara Resende

Mercados

O manifesto em que André Lara Resende defende a queda da taxa Selic tem sofrido interpretações equivocadas tanto por parte do governo quanto do mercado financeiro, com cada grupo extraindo da leitura apenas o que lhe é conveniente. A avaliação é da economista Monica de Bolle, que atua como pesquisadora sênior no Peterson Institute for International Economics, localizado em Washington.

“Isso serve tanto para a Faria Lima quanto para o governo, mas sobretudo para o povo do PT que não quer entender direito qual é a história”, afirma.

Publicado em sua página oficial na internet no dia 25 de setembro, o artigo assinado por Lara Resende — um dos principais formuladores do Plano Real — sustenta que a verdadeira raiz do problema da dívida pública brasileira reside nos juros elevados, e não no resultado primário. Entre as diversas diretrizes apresentadas, ele sugere que o Banco Central promova uma redução gradual da Selic ao longo de aproximadamente 12 meses, até que o índice se aproxime de 7,5% ao ano. A repercussão do documento cresceu expressivamente após especulações sobre um encontro entre o economista e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além de receber manifestações favoráveis de figuras alinhadas à gestão federal.

Conforme a análise de De Bolle, a estratégia idealizada por Lara Resende passa longe de ser uma imposição forçada de juros — método que, segundo ela, jamais traz resultados positivos —, e o próprio material redigido por ele menciona a necessidade de esforços voltados ao aprimoramento das contas públicas.

Um debate de três décadas

A especialista destaca que o documento trazido pelo coautor do Plano Real revitaliza uma discussão crucial sobre as origens dos gargalos econômicos do país que o Brasil tem evitado enfrentar nos últimos 30 anos: a urgência de promover a desindexación da economia. Ela pontua que já era de conhecimento geral há muito tempo que a inércia inflacionária exerceria forte influência sobre a escalada das taxas de juros.

Essa complicação reflete-se diretamente na parcela do endividamento público atrelada à Selic, fator que provoca uma expansão imediata nos gastos estatais sempre que a autoridade monetária decide elevar os juros. De acordo com a economista, essa dinâmica auxilia na compreensão de por que, na conjuntura brasileira, patamares elevados de juros acabam por estimular pressões sobre a inflação, corroborando a tese de Lara Resende.

No momento em que a dívida pública sofre alta, o prêmio de risco experimenta um salto, o câmbio perde estabilidade e a moeda nacional tende à desvalorização, gerando assim um novo vetor inflacionário.

Do ponto de vista da economista, o processo de desindexação da dívida que está em pauta equivaleria, na prática, a uma operação de reestruturação, ainda que adotada de forma voluntária. No currículo de De Bolle consta passagem pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) durante os processos de reestruturação das dívidas da Argentina e do Uruguai no decorrer dos anos 2000.

“Não há reestruturação de dívida pública que não envolva ajuste fiscal. Para deixar claro para quem acha que se se abanar a varinha de condão a taxa de juros cairá, não é assim”, disse.

Desafios de coordenação econômica

A pesquisadora aponta ainda que uma iniciativa dessa envergadura demanda um nível rigoroso de comunicação, exigindo a harmonização simultânea entre as diretrizes monetárias e fiscais, além de atenção ao cenário externo, como forma de prevenir eventuais fugas de capital. É exatamente por esse motivo que Lara Resende propõe a utilização das reservas internacionais para frear movimentos de desvalorização do real, observa ela. Sob essa ótica, De Bolle enfatiza que as reservas funcionam como um amortecedor indispensável em meio à volatilidade global.

Em contrapartida, a economista demonstra ressalvas quanto à eventual criação de um conselho encarregado de sincronizar as políticas fiscal e monetária. Embora reconheça que a premissa faça sentido no plano teórico, ela ressalta a complexidade de sua aplicação na realidade, visto que o universo fiscal não se restringe exclusivamente à esfera do governo federal, englobando também estados, municípios e empresas estatais — o que torna a execução prática altamente desafiadora.

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