As Bolsas de valores ao redor do mundo registraram alta e o dólar passou a se desvalorizar frente a outras moedas, enquanto os títulos do Tesouro dos EUA apresentaram queda em seus rendimentos, na esteira da reação dos mercados à derrota imposta ao presidente Donald Trump nas eleições de meio de mandato do país.
As projeções da imprensa norte-americana indicam que o partido Republicano perdeu o controle tanto do Senado quanto da Câmara para o partido Democrata. Com esse cenário, Trump enfrentará obstáculos significativos para aprovar seus projetos no Congresso, uma vez que deixou de deter a maioria que havia garantido em seus dois primeiros anos de mandato.
Inicialmente, a reação dos investidores provocou um tombo abrupto nas ações das Bolsas asiáticas, nas criptomoedas, nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano e na cotação do dólar. No entanto, o panorama mudou gradualmente para boa parte dos ativos.
Desempenho das Bolsas globais
Quase todas as principais Bolsas da Ásia fecharam em território positivo, com exceção de Tóquio, que recuou 1,41% em razão da forte dependência do mercado japonês em relação aos Estados Unidos. Por outro lado, a Bolsa de Xangai, na China, avançou 2,16%, registrando seu maior ganho diário desde abril, embalada pelo índice CSI300 — que agrupa empresas de Xangai e Shenzhen —, que subiu 2,31%.
Outros mercados asiáticos também encerraram o dia com ganhos, a exemplo de Seul (0,62%) e Hong Kong (1,67%). Na Europa, o movimento de alta predominou. Por volta das 7h30 (horário de Brasília), o índice STOXX 600, principal referência da União Europeia, exibia alta de 1,23%, acompanhado por Frankfurt (1,05%), Londres (0,75%), Paris (1,12%), Madri (2,22%) e Milão (1,93%).
Nos Estados Unidos, a tendência de valorização aparecia antes mesmo da abertura oficial do pregão. Os índices futuros Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq subiam 0,84%, 0,35% e 0,16%, respectivamente.
Comportamento do dólar e das criptomoedas
Durante a manhã, o dólar registrou desvalorização ante diversas divisas. O euro subiu 0,4%, cotado a US$ 1,133, a libra avançou 0,5% para US$ 1,348, o franco suíço teve ganho de 0,6% atingindo 0,8163 franco, e o iene japonês valorizou 0,4%, indo a 158,12 ienes.
“Os democratas conseguiram uma vitória dupla nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos que poucos previam no início do ano. A onda azul (em alusão à cor do partido Democrata) significa que o governo federal certamente ficará dividido na maioria das questões”, apontou Deborah Cunningham, diretora de investimentos para mercados globais de liquidez da Federated Hermes.
Analistas apontaram ainda que ajudou a aliviar os ânimos o fato de não vingar a promessa do presidente Donald Trump de distribuir US$ 5.000 a adultos norte-americanos.
As criptomoedas sofreram forte baixa na madrugada, mas conseguiram se recuperar ao longo da manhã. O bitcoin chegou ao menor patamar em seis semanas antes de engatar recuperação e subir 0,76%, sendo negociado a US$ 78,7 mil por volta das 7h40. O ether teve alta de 1,4%, alcançando US$ 2.323.
Desde o início de seu mandato, Trump se posicionou como defensor das criptomoedas, e sua família mantém a plataforma de moeda digital World Liberty Financial, que faturou bilhões de dólares em dois anos. O setor investiu mais de US$ 300 milhões no apoio a políticos democratas e republicanos simpáticos às criptomoedas, em proporções semelhantes, tanto no ciclo eleitoral atual quanto no anterior.
Tokens menores, a exemplo de sol, dogecoin e ada, operavam em alta entre 1,6% e 2,2% nesta quarta-feira, embora acumulassem perdas de quase um quarto de seu valor no último mês, conforme dados do site especializado CoinGecko.
“Possíveis mudanças no cenário político dos Estados Unidos podem interromper o avanço da legislação estrutural sobre criptomoedas e o desenvolvimento de um arcabouço institucional. Todos esses fatores deixam o mercado de criptomoedas diante de fortes ventos contrários”, afirmou Tim Sun, pesquisador sênior da HashKey.
Títulos do Tesouro e juros
Os títulos do Tesouro americano registraram valorização, impulsionados pela expectativa dos investidores de que o impasse político em Washington resulte em corte de gastos do governo. Além disso, a regulamentação da inteligência artificial (IA) pode vir a desacelerar o crescimento econômico e diminuir a necessidade de novas altas nas taxas de juros.
Os rendimentos dos títulos de referência de 10 anos recuaram 2,1 pontos-base, fechando a 4,9291%, enquanto os papéis de 2 anos cederam cerca de 1,2 ponto-base, para 4,6017%. Horas antes, as quedas haviam sido ainda mais expressivas, alcançando o menor nível em quase dois meses (vale lembrar que os rendimentos caem quando os preços dos títulos sobem).
“Agora parece mais provável que os democratas possam vencer em 2028 e, se isso ocorrer, a regulamentação da IA ganhará força”, avaliou Andrew Lilley, estrategista-chefe de juros do Barrenjoey, banco de investimento sediado em Sydney. Ele acrescentou que o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) provavelmente interpretará esse cenário como um argumento para não elevar os juros, que atualmente estão situados entre 3,75% e 4%.
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