Fim da escala 6×1: impactos indiretos e oportunidades para o mercado imobiliário

Fim da escala 6×1: impactos para o mercado imobiliário

Imóveis

O plenário do Senado aprovou nesta quarta-feira (14), por 75 votos favoráveis contra apenas 1 contrário, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina a extinção da escala de trabalho 6×1. Com envio direto para promulgação, o texto estipula o limite máximo de 40 horas semanais com direito a dois dias de descanso remunerado, sem qualquer redução nos salários. Para entrar em vigor prático, a matéria ainda depende de regulamentação posterior e de acordos coletivos setoriais.

A transição prevista exige que as empresas imobiliárias comecem a alinhar suas operações já de olho em 2027. Duas etapas compõem o cronograma: a primeira inicia dois meses após a promulgação, reduzindo a carga horária para até 42 horas por semana; após um ano desse primeiro marco, a jornada cai definitivamente para 40 horas, totalizando 14 meses de adaptação. Diante da expectativa de promulgação ainda em outubro, o modelo completo deve valer a partir de janeiro de 2027. Essa transformação promete movimentar o setor, afetando especialmente o público do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e as rotinas de recrutamento.

Novos hábitos de busca e exigências no MCMV

Segundo a diretora de agência de marketing Camila Gasparini, o encerramento do regime 6×1 tende a intensificar a procura por moradias, gerando mais cliques e engajamento com anúncios digitais de corretoras. Mudanças no fluxo de atendimentos ao longo dos dias úteis e picos de contatos aos domingos devem ser sentidos pelas equipes comerciais. “As pessoas tendem a pesquisar imóveis nos dias de folga”, Camila explica.

A executiva ressalta que o aumento do tempo livre gera consumidores e locatários bem mais informados antes do primeiro contato. Por conta disso, a agilidade no atendimento torna-se indispensável para sanar dúvidas e contornar objeções. “Além de usar a IA no primeiro atendimento, fora do expediente, vale empregar a tecnologia durante a semana, em diferentes turnos e estágios do funil, de acordo com a demanda”, Camila orienta.

Outro reflexo provável está na elevação do nível de exigência sobre metragens, áreas de lazer e comodidades no entorno dos empreendimentos, ponto que ganhará força no segmento econômico. “O imobiliário precisa usar o que aprendeu com o médio e alto padrão e aplicar no segmento econômico, pois este público vai ficar mais exigente”, Camila aponta.

Desafios de contratação e escalas de trabalho

Um levantamento da Rede Cidadã indica que praticamente 50% dos trabalhadores alcançados pelo fim da escala 6×1 planejam dedicar a folga extra aos estudos. Esse cenário pode impulsionar as matrículas em cursos de técnico em transações imobiliárias (TTI), porta de entrada da carreira. Ainda assim, para a vice-presidente de operações Renata Maciel, isso não se traduzirá de forma direta em um salto no número de corretores. O modelo de ganhos por comissão segue como obstáculo para quem busca previsibilidade financeira, somado ao fato de que profissionais em meio período não atendem às necessidades das imobiliárias. “A falta de foco compromete a produtividade”, Renata afirma.

A migração de outras áreas rumo à corretagem, contudo, é um movimento contínuo. Setores como comércio varejista, gastronomia, turismo e hotelaria continuam abastecendo o mercado com talentos acostumados com o trato ao público. “Há maior chance de compatibilidade para aqueles acostumados aos riscos, com habilidades em vendas, atendimento e relacionamento”, Renata salienta.

Por fim, vale frisar que a nova legislação não veta o expediente em fins de semana, abrindo espaço para adequações internas e acordos com sindicatos. Aliada a ferramentas digitais, essa flexibilidade ajudará a manter o suporte aos clientes ativo. “Muito pode ser resolvido com reorganização das rotinas, desde que respeite a lei, a equipe e o cliente”, Renata pontua.

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