Marajó sob a terra: Conheça a sociedade complexa que habitou a ilha antes da colonização

Os segredos da civilização pré-colonial na Ilha do Marajó

Curiosidades

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, a Ilha do Marajó, no Pará, abrigou uma civilização engenhosa e populosa que desafiou o regime de cheias da Amazônia. Capazes de erguer imensos montes de terra artificiais, gerenciar reservatórios de pesca e produzir uma das tradições cerâmicas mais refinadas das Américas, esses grupos indígenas estruturaram uma sociedade hierarquizada e complexa que floresceu por mais de mil anos no Norte do Brasil.

Com uma extensão territorial equivalente à de países como Dinamarca ou Suíça e habitado hoje por 590 mil pessoas, o arquipélago marajoara convive atualmente com fortes contrastes sociais, abrigando o município de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país e carências crônicas de infraestrutura. No subsolo, contudo, repousa um patrimônio arqueológico de relevância global, cuja dimensão ainda surpreende pesquisadores e visitantes.

Engenharia contra as cheias amazônicas

Um dos vestígios mais marcantes dessa ocupação pré-cabralina são os chamados “tesos”, elevações artificiais que alcançam até 10 metros de altura. Construídos próximos a rios a partir do acúmulo de terra retirada das redondezas, esses montes serviam de plataforma habitacional segura contra as inundações periódicas da região, cumprindo função parecida com a das palafitas contemporâneas.

A retirada de sedimentos para levantar os tesos gerava bacias que se transformavam em lagos artificiais. Quando as águas dos rios subiam, enchiam esses reservatórios de peixes; durante a estiagem, os animais ficavam retidos, assegurando alimento fresco ao longo de todo o ano. Centenas dessas estruturas estão espalhadas pelo território marajoara, servindo no passado como moradia, espaços cerimoniais e necrópoles.

As primeiras intervenções na área ocorreram por volta de 1870, com escavações pioneiras no sítio Teso dos Bichos impulsionadas pelo interesse internacional nas teorias evolutivas do século 19. Naquele momento, as cerâmicas sofisticadas atraíram museus do mundo inteiro. Sobre esse período, Cristiana Barreto, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (USP), ressalta: “Era uma curiosidade: como um lugar tão ‘inóspito’ e com povos ‘primitivos’, como a Amazônia, pode ter tido uma cerâmica tão complexa?”. A especialista pontua o descontrole nas coletas da época: “Virou uma moda entre os grandes museus do mundo ter uma coleção de cerâmica marajoara. E aí foi uma pilhagem, mesmo […] eu nem chamo de escavação.”

Mudança de paradigmas científicos

A partir de 1948, os arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e Clifford Evans introduziram critérios estratigráficos no Marajó, associando camadas de solo a linhas temporais e identificando cinco fases cerâmicas: ananatuba, mangueiras, formiga, marajoara e aruã. As ocupações mais antigas foram datadas por volta de 1500 a.C.

Por décadas, prevaleceu a tese de Meggers e Evans de que o ambiente amazônico seria hostil demais para sustentar o florescimento autônomo de uma cultura complexa. A dupla sugeria que os artífices da fase marajoara (datada entre 400 d.C. e 1400 d.C.) seriam migrantes andinos que desceram a bacia amazônica e teriam entrado em declínio com o tempo, sendo sucedidos pela fase aruã.

Esse determinismo ecológico começou a ruir na década de 1980 com os estudos da arqueóloga Anna Roosevelt. Suas pesquisas demonstraram que a sociedade marajoara não foi importada, mas desenvolvida regionalmente por meio da agricultura e do manejo eficiente do solo. O termo “complexa” passou a traduzir a organização prática dessas populações, caracterizada por lideranças políticas centralizadas (sistemas de cacicado), estratificação social e divisão de tarefas entre engenheiros de terra, escultores e pintores.

Ritos funerários e simbolismo da cerâmica

Entre os artefatos preservados, destacam-se grandes urnas funerárias de até 1 metro de altura, ornamentadas em tons de vermelho, preto e branco com pigmentos derivados de urucum, minerais ferrosos e caulim. Os costumes fúnebres envolviam ritos demorados: o indivíduo era sepultado no solo até a decomposição dos tecidos moles; em seguida, os ossos eram exumados e transferidos para as urnas, muitas vezes esculpidas com formas antropomorfas combinadas a feições do gavião-real, ave de rapina que poderia simbolizar a condução da alma ao pós-vida.

A produção material incluía recipientes domésticos, brinquedos em miniatura, inaladores para consumo cerimonial de rapé e chocalhos humanoides decapitados, possivelmente fragmentados após ritos xamânicos para liberar energias espirituais. Exclusividade arqueológica da região, as tangas de cerâmica eram moldadas sob medida para uso feminino em celebrações de fertilidade, frequentemente decoradas com padrões gráficos associados a serpentes e jacarés.

Declínio, resistência e resgate cultural

A fabricação da cerâmica marajoara clássica cessou por volta de 1400. As causas para essa transição ainda geram discussões científicas. Conforme analisa Cassia da Rosa, arqueóloga da Secretaria de Cultura do Pará: “Pode ter ocorrido uma grande seca que afetou a alimentação, […] uma disputa territorial ou de poder, uma série de situações”.

Contudo, o povo marajoara não desapareceu repentinamente. Pesquisas coordenadas pela arqueóloga Denise Schaan localizaram sítios com cerâmica marajoara ativos entre 1300 e 1650, situados no interior de florestas e não mais nos campos abertos, indicando possíveis refúgios para escapar do avanço colonial. A museóloga Helen Miranda, do Museu Paraense Emílio Goeldi, destaca: “Hoje nós estamos pensando em uma arqueologia mais flexível, em que esses povos tinham suas relações de trocas e conversas […] É possível que eles estivessem fugindo, porque já tinham notícias da presença dos brancos naquele território. Esse é um entendimento da mobilidade e das conexões que esses povos tinham”.

Com a ocupação portuguesa por meio de sesmarias no século 17, as terras foram convertidas em fazendas particulares, situação fundiária que predomina até hoje e ameaça sítios arqueológicos com o pisoteamento de criações de búfalos e a destruição de tesos para obras privadas.

A valorização dessa herança ganhou impulso a partir dos anos 1970 com o padre italiano Giovanni Gallo, que recolhia aquilo que os locais chamavam de “coisas velhas” e estruturou o Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari. Gallo também catalogou padrões geométricos e incentivou o artesanato e o bordado locais. Na atualidade, ateliês regionais reinterpretam as peças e reafirmam a ligação comunitária com a ancestralidade indígena. Conforme sintetiza o artesão Ronaldo Guedes: “Produzindo essa cerâmica, a gente ativa essa memória, se reconecta com a nossa ancestralidade e entende como a gente faz parte do processo”.

Paralelamente ao trabalho de restauração e digitalização em três dimensões conduzido no Museu Goeldi, a sociedade civil e os especialistas impulsionam o Manifesto Marajoara, movimento que reivindica a repatriação das milhares de peças arqueológicas levadas para acervos estrangeiros, buscando reconectar a população local com seu patrimônio original.

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