Mensagens de WhatsApp extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro registram uma conversa em que o banqueiro e um contato identificado no aparelho como o empresário Flávio Carneiro fazem comparações com o criminoso sexual americano Jeffrey Epstein. O diálogo ocorreu em 19 de dezembro de 2023, em meio a comentários sobre publicações do investidor Vladimir Timerman, gestor da Esh Capital e autor de denúncias sobre operações do Banco Master.
Uma captura de tela reproduzida em relatório da Polícia Federal mostra uma postagem de Timerman em rede social, datada do dia anterior, que dizia: “No meio das minhas investigações tenho convicção de que encontrei o Jeffrey Epstein brasileiro…”. O texto não identifica a quem ele se referia.
Na conversa, o banqueiro escreveu “Jeff epstein” e “Carapuça caiu kkkk”. Depois, afirmou ter percebido que a publicação se referia a outra pessoa. Carneiro respondeu: “Essa aí não tem sua cara pq o jeff tá amador demais”. Vorcaro enviou: “Kkkk”.
Carneiro disse à reportagem que é amigo de Vorcaro, mas que nunca trabalhou para o banqueiro e não tinha conhecimento de todas as suas atividades. Afirmou não se lembrar exatamente do assunto da conversa, mas disse recordar que o contexto era uma disputa entre Vorcaro e Timerman. “Acredito se tratar de um comentário sobre algum trecho de matéria publicada a respeito do tema entre eles”, disse.
Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março na investigação sobre supostas fraudes no Banco Master. Além desse caso, a PF abriu uma investigação preliminar sobre suspeitas de exploração sexual de mulheres envolvendo o banqueiro.
Festas e pagamentos
Em uma conversa de 18 de agosto de 2025, Vorcaro associou as festas que organizava aos seus negócios ao responder à então namorada, Martha Graeff, que questionava por que ele seguia determinadas mulheres nas redes sociais. “Fazia parte do meu business. Nunca te escondi o que fiz e pq fiz”, respondeu o banqueiro. “Fiz festa com 300 desse tipo. Não quer dizer que fiquei.”
Outros diálogos registram supostos pagamentos pela presença de mulheres e valores adicionais caso elas ficassem com convidados. Há também propostas de investimento em agências de modelos e uma discussão sobre contratações e vistos. Esses temas também aparecem na história de Jeffrey Epstein, que financiava modelos no Brasil e avaliou propostas de investimento relacionadas a algumas das mesmas agências brasileiras citadas nas mensagens de Vorcaro, mas a ideia não avançou. Os registros examinados não estabelecem ligação entre os dois homens.
Epstein foi condenado em 2008 nos Estados Unidos por crimes relacionados à prostituição, um deles envolvendo uma menor de idade. Em 2019, voltou a ser preso, acusado de tráfico sexual de menores, e morreu na prisão antes do julgamento. Vorcaro não responde a nenhum desses crimes nem há qualquer suspeita de envolvimento com menores de idade.
A defesa de Vorcaro nega, em nota, as acusações de suposta exploração sexual de mulheres. “Nego veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres. Isso não é da minha índole. Na verdade, a falsa narrativa criada é exatamente o oposto do que sou, o que pode ser confirmado por qualquer mulher que me conheceu ou com quem me relacionei”, disse a nota divulgada na terça-feira (13).
Em outubro de 2024, o banqueiro encaminhou as condições “Presença 2 mil Se ficar com alguém 10 mil”. Em fevereiro de 2025, a interlocutora confirmou o recebimento de um pagamento após discutir com ele valores relativos a um encontro. Em setembro, conversas indicavam cobranças em nome de uma amiga: “Ela disse que ficou com o kassio!”. O banqueiro respondeu: “Me manda aqui” e “Dados e valor”.
A assessoria do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, afirmou à reportagem que ele nunca trocou mensagens com Vorcaro, pediu algo ao banqueiro ou votou a seu favor, tendo inclusive votado pela manutenção da prisão. Disse ainda que ele nunca autorizou terceiros a falar em seu nome.
Propostas envolvendo agências de modelos
Além das festas e dos pagamentos, mensagens de Vorcaro trocadas com o empresário Tiago Polo registram propostas de investimento em agências de modelos. Polo afirmou que sua relação com Vorcaro foi profissional e pontual, com trabalhos remunerados de relações públicas e produção de eventos. “Nunca recrutei mulheres para encontros de natureza sexual, nem para Daniel Vorcaro nem para qualquer outra pessoa”, disse.
Polo disse que foi procurado em 2023 para sondar um possível investimento de Vorcaro numa agência de modelos, com o pedido de que o nome do banqueiro não fosse mencionado nas conversas iniciais. Em 19 de outubro de 2023, Polo sugeriu uma reunião com um diretor da Ford Models. “Ele vende?”, perguntou Vorcaro. Polo respondeu que também tinha a agência Allure entre as possibilidades e atribuiu a outro interlocutor a frase: “A ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”. “Vamos na top”, respondeu Vorcaro, “Ford”. Depois perguntou: “Mas ele vende uma parte?”.
Sobre a expressão “ajustar as meninas”, Polo afirmou que reproduzia uma fala de outra pessoa e que não poderia dizer o que ela pretendia expressar. A Ford Models Brasil afirmou que nunca teve contato com Vorcaro ou Polo e que nunca recebeu proposta de compra ou parceria.
Em 30 de novembro, a discussão se concentrou na Allure. “Cara, vamos fazer”, respondeu Vorcaro. Quando Polo perguntou em nome de quem preparar o contrato, o banqueiro escreveu: “Vou colocar um fundo”. “Senao nao tem como eu por a grana”, completou. A Allure Management afirmou que seu responsável conversou com Polo em 2023 sobre uma proposta de investimento para o crescimento da agência, voltada exclusivamente à moda e à publicidade, negando qualquer relação com Vorcaro.
As mensagens também registram uma discussão sobre contratações e vistos. Em uma conversa de 16 de fevereiro de 2024, Vorcaro escreveu a um interlocutor: “Vamos tirar visto famiglia”, “Contratar todas allure” e “E marca entrevista”. O contato respondeu: “Deixa comigo”. O diálogo não identifica as mulheres, o destino dos vistos ou se os pedidos foram realizados.
O que caracteriza exploração sexual?
Para especialistas como Carlos H. Borlido Haddad e Lívia Miraglia, professores da UFMG e coordenadores da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas, distinguir prostituição autônoma de exploração sexual exige examinar o recrutamento, as promessas feitas e a liberdade das mulheres para recusar encontros e definir preços.
“A avaliação é sempre concreta: a vulnerabilidade por si só não configura o crime, é preciso demonstrar que o agente se aproveitou dela”, afirma Miraglia. Haddad acrescenta que o mero financiamento de passagens não é crime, sendo necessário comprovar o conhecimento da finalidade de exploração por meio de registros financeiros e mensagens.
O auditor fiscal do trabalho Maurício Krepsky ressalta que o recrutamento de mulheres em situação migratória precária para trabalho sexual pode configurar tráfico de pessoas, embora o trabalho sexual voluntário de adultos seja lícito e protegido pelas normas trabalhistas.
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