A Fundação Biblioteca Nacional revelou na terça-feira (20) os ganhadores das treze categorias que integram a edição de 2026 do tradicional Prêmio Literário Biblioteca Nacional. Cada um dos vitoriosos receberá a premiação no valor de R$ 30.000,00.
Na disputa pela categoria Romance, o livro escolhido foi Os imortais (Fósforo), escrito por Paulliny Tort. Na obra, que sucede a bem-avaliada coletânea de contos Erva brava (Fósforo, 2021) — reconhecida pela APCA —, a autora retrata a jornada de um clã neandertal que acolhe uma criança sapiens. A vitória do romance de Tort ocorreu por unanimidade, conforme destacou Élvio Cotrim, integrante do júri de uma categoria que contabilizou 409 inscrições.
Em uma análise publicada na edição 104 da revista Quatro Cinco Um, Ligia Gonçalves Diniz ressalta que “Tort não se furta a fantasiar, num gesto de puro gozo literário, embora claramente tenha feito pesquisa sobre o período em questão. O que há de mais belo no romance, porém, é o movimento em direção aos nossos ancestrais. Há anacronismos: muitos personagens pensam de forma semelhante a nós. Um crítico positivista talvez se melindre com essa imprecisão, chamando-a erro ou logro. Prefiro celebrar a força da ficção, essa invenção humana que permite ver o que ficou perdido, o irrecuperável”.
Já o prêmio da categoria Conto ficou com a autora santista Maria Valéria Rezende por Recapitulações (Editora 34). No livro, ela traz de volta à vida figuras literárias criadas por Machado de Assis, Franz Kafka e Guy de Maupassant para conceder-lhes novos desfechos. Durante conversa com Iara Biderman, a escritora pontuou que “as histórias [de Recapitulações] foram escritas ao longo da minha vida. Só depois percebi que tinha vários contos em que ou esses escritores são os personagens ou eu roubo os personagens deles e contesto a história que contaram”.
Enquanto isso, a honraria na categoria Poesia contemplou O jardim das oliveiras, assinado por Adélia Prado e lançado pela editora Record. A obra poética ganhou resenha de Wander Melo Miranda na edição 100 da revista de literatura, período em que integrou a seleção de Os Melhores Livros de 2025.
Entre os destaques da não ficção, João Guimarães Rosa: biografia (Nova Fronteira e Topbooks), de Leonencio Nossa, conquistou o topo na categoria Ensaio Literário. Em texto publicado na edição de agosto da revista literária, Luis Campagnoli pontuou que “fácil de ler, o texto de Nossa tem o melhor do estilo jornalístico […], a vida do biografado ajuda um bocado, com inúmeras anedotas espirituosas, como o caso da prova oral para o Itamaraty, em que Rosa, perguntado sobre o que conhecia de literatura francesa, respondeu simplesmente que conhecia tudo. Como assim, tudo? Tudo”.
No campo do Ensaio Social, o troféu foi para Irmãs do Atlântico: escravidão e espaço urbano no Rio de Janeiro e em Havana (1763-1843), obra de Ynaê Lopes dos Santos editada pela Civilização Brasileira.
No segmento de Histórias de Tradição Oral, o vencedor foi Memórias do cacique, de Raoni Mẽtyktire, lançado pela Companhia das Letras. Sobre a publicação, Aparecida Vilaça apontou que “Memórias do cacique vai muito além de fatos, já conhecidos através de sua repercussão na mídia […]. A narrativa de Raoni aborda a mitologia, a vida social, a intensa atividade ritual (‘nossos antepassados viviam em festa’), os conflitos internos e guerras, assim como diferentes momentos do contato entre seu povo e os não indígenas”.
O livro Gavião, de Lulu Lima (Mil Caramiolas), levou o prêmio de Literatura Infantil. Na categoria juvenil, o primeiro lugar coube a Roger Mello e Felipe Cavalcante com U-507 (Global), obra que aborda a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial na sequência de investidas contra três embarcações nacionais na costa sergipana em 1942. “É uma história que diz muito sobre o nosso país: apesar de ser bem documentada nos registros, pouco permanece na memória coletiva. Poucos sabem sobre o episódio, que deixou seiscentas pessoas mortas e que pode estar no passado de suas famílias, assim como faz parte da minha história familiar e da do Felipe”, declarou Mello em diálogo com Jaqueline Silva.
No terreno das Histórias em Quadrinhos, a primeira posição pertence a Dormindo entre cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci (Comix Zone). O médico e o quadrinista retratam os desafios da atuação na medicina durante a crise sanitária da Covid-19 dentro de um hospital de campanha montado em Rondônia. A HQ recebeu resenha de Érico Assis na revista de livros em setembro de 2025. Por fim, na categoria Tradução, o título premiado foi Sem despedidas (Todavia), assinado por Han Kang e vertido para o português por Natália T.M. Okabayashi.
Abaixo, veja a relação com os três primeiros colocados de cada segmento nos Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional em 2026.
Categoria Romance — Prêmio Machado de Assis
1º Os imortais, de Paulliny Tort. Fósforo.
2º Masuaki e/ou Não deixe os cachorros latirem sozinhos, de Lourenço Mutarelli. Companhia das Letras.
3º Piscinas russas, de Renata Belmonte. Tusquets.
Categoria Conto — Prêmio Clarice Lispector
1º Recapitulações, de Maria Valéria Rezende. Editora 34.
2º Mulheres que amam assombradas, de Sandra Liss. Litteralux.
3º A escuridão do ventre, de Clara Arreguy. Outubro Edições.
Categoria Crônica — Prêmio João do Rio
1º Lugares para chorar no Recife e outros, de DJ Dolores. Seja Breve.
2º Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior que eu, de Cidinha da Silva. Rosa dos Tempos.
3º Não sei se é bom, mas é teu, de Maria Ribeiro. Record.
Categoria Poesia — Prêmio Alphonsus de Guimaraens
1º O jardim das oliveiras, de Adélia Prado. Record.
2º Boris e Marina, de Alberto Martins. Grupo Companhia das Letras.
3º Os mortos, de Paulo Franchetti. Ateliê Editorial.
Categoria Ensaio Literário — Prêmio Mário de Andrade
1º João Guimarães Rosa: biografia, de Leonencio Nossa. Nova Fronteira.
2º Exílio como forma: Gonçalves Dias e o dilema brasileiro, de João Cezar de Castro Rocha. Autêntica.
3º Crítica insubmissa, de Beatriz Resende. Mapa Lab.
Categoria Ensaio Social — Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
1º Irmãs do Atlântico: escravidão e espaço urbano no Rio de Janeiro e em Havana (1763-1843), de Ynaê Lopes dos Santos. Civilização Brasileira.
2º Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos, de Felipe Loureiro. Companhia das Letras.
3º Dicionário de direitos humanos e afins, de Nei Lopes. Civilização Brasileira.
Categoria Histórias de Tradição Oral — Prêmio Akuli
1º Memórias do cacique, de Raoni Mẽtyktire. Companhia das Letras.
2º A travessia de N’Koko, de André Girardo. Iluminuras.
3º A origem do milho kurâ — Anji-Itabienly, de Eric Timóteo Iwyrâkâ Kamikiawa. PeraBook.
Categoria Histórias em Quadrinhos — Prêmio Adolfo Aizen
1º Dormindo entre cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci. Comix Zone.
2º Segue o baile, de Magô Pool. Veneta.
3º Água até aqui: histórias de luta, sobrevivência e recomeço na maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, de Pablito Aguiar. Arquipélago Editorial.
Categoria Literatura Infantil — Prêmio Sylvia Orthof
1º Gavião, de Lulu Lima. Mil Caramiolas.
2º Eletricista, de Augusto Massi e Daniel Kondo. Elo.
3º Velho Sertão, de Fernanda Rios e Marcelo Tolentino. Pequena Zahar.
Categoria Literatura Juvenil — Prêmio Glória Pondé
1º U-507, de Roger Mello e Felipe Cavalcante. Global.
2º Ocupado!, de Paula Fábrio. FTD.
3º A história dos nossos amores, de Severino Rodrigues. Globo.
Categoria Ilustração — Prêmio Carybé
1º O muiraquitã: uma proteção ancestral, de Mauricio Negro. PeraBook.
2º A árvore solitária, de Rodrigo Mafra. PeraBook.
3º Velho sertão, de Marcelo Tolentino. Pequena Zahar.
Categoria Projeto Gráfico — Prêmio Aloísio Magalhães
1º Verena Smit: entre a palavra e a imagem, de Paulo André Chagas, Gabriela Marques de Castro e Gustavo Marchetti. WMF Martins Fontes.
2º Arquitetura do estado de trânsito, de Gabriela Marques de Castro, Gustavo Marchetti e Paulo André Chagas. Machado.
3º Excelsior, de Luciana Facchini. Ubu.
Categoria Tradução — Prêmio Paulo Rónai
1º Sem despedidas, de Han Kang. Tradução de Natália T.M. Okabayashi. Todavia.
2º O contador, a noite e o balaio, de Patrick Chamoiseau. Tradução de Henrique Provinzano Amaral. Editora 34.
3º Eurídice e outros poemas, de Hilda Doolittle. Tradução de Camila de Moura. Círculo de Poemas.
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