A expansão expressiva do PL nas eleições de 2026 reacendeu no Congresso o debate sobre uma antiga proposta de reforma política. Chefes do Centrão passaram a analisar a implementação do voto distrital misto, um formato que transformaria o processo de escolha dos deputados federais e possivelmente enfraqueceria o impacto de parlamentares com votações massivas sobre o sucesso de suas siglas.
O debate ganhou tração após figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato acumularem milhões de votos, impulsionando a bancada do PL. Sob a lógica atual do sistema proporcional de lista aberta no Brasil, os sufrágios obtidos por um postulante servem para calcular o total de vagas conquistadas por seu partido.
Em conversa com o programa político Mapa de Risco, o cientista político Ivan Fernandes, docente da Universidade Federal do ABC (UFABC), pontuou que alterações nas normativas eleitorais costumam emergir quando legendas enxergam ameaças à preservação de seu poder.
“Toda vez que você tem uma tensão política, isso acontece. Quem vê que está perdendo apoio pensa em novas regras”, afirmou.
O plano debatido por dirigentes partidários projeta uma transição em 2030 e a implementação efetiva do voto distrital misto a partir de 2034. Contudo, as tratativas seguem em fase preliminar, sem um formato consolidado.
Entenda o funcionamento do voto distrital misto
Atualmente, o eleitor vota diretamente em um candidato a deputado federal, mas o desfecho depende também do desempenho global da legenda ou federação. Essa dinâmica possibilita que nomes com votação expressiva puxem outros correligionários para o mandato, desde que superadas as barreiras legais.
No formato distrital misto, um grupo de deputados seria eleito por meio de circunscrições geográficas (distritos), enquanto os demais viriam de listas partidárias. A partilha das cadeiras estaria atrelada ao desenho regulatório escolhido para fundir essas duas formas de apuração.
Uma das repercussões prováveis seria dar mais peso a candidatos com redutos eleitorais consolidados, em detrimento daqueles que pulverizam votos por todo o estado. Na visão de Fernandes, a alteração modificaria o ritmo de renovação da Câmara e a estratégia de lançamento de candidaturas.
Enquanto o modelo vigente premia a projeção digital e a popularidade nacional — muito impulsionada pelas redes sociais —, o sistema distrital valoriza a proximidade com a base de uma localidade específica.
Contudo, o professor pondera que nenhuma formatação de voto é perfeita ou superior às demais.
“Todos os modelos têm virtudes e têm defeitos”, afirmou.
Os obstáculos para a aprovação
O principal entrave para a reforma está no próprio Parlamento, aponta Fernandes. Os atuais ocupantes de assentos na Câmara e no Senado conquistaram seus mandatos sob a égide das regras vigentes, de modo que modificá-las gera incerteza sobre a própria sobrevivência política.
“Se você mudar a regra, você não sabe se eles vão ser eleitos”, disse.
O especialista avalia que alterações estruturais dessa envergadura demandam longas negociações e encontram barreiras naturais entre os beneficiários do modelo atual. O grupo resistente abrange desde veteranos até novas lideranças alçadas pelo voto proporcional de lista aberta que perderiam margem de manobra.
Fernandes também faz ressalvas quanto a mudanças desenhadas para reagir a um pleito isolado, defendendo que reformas institucionais precisam mirar o longo prazo, sem que as siglas consigam antecipar o favorecimento de um grupo específico.
“Uma reforma que seja institucional para o país e não para reduzir o poder político de grupo A ou de grupo B”, defendeu.
Apesar das articulações, o tema carece de consenso e de garantias de tramitação. Devido à capacidade de mexer com a disputa de todas as forças partidárias, o avanço da matéria exigirá forte articulação política.
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