O desmonte da democracia

Novo livro detalha articulação civil e militar na queda da democracia

Cultura

A historiadora, cientista política e professora da UFMG Heloisa M. Starling lança, pela Companhia das Letras, o livro A máquina do golpe: 1964 — como foi desmontada a democracia no Brasil. Ao longo de oito dias, militares e civis se articularam no golpe que resultou na ditadura militar que durou 21 anos.

Os antecedentes da ruptura institucional e a movimentação política e castrense são recuperados dia a dia, hora a hora, revelando uma articulação em várias frentes que também contou com a participação dos Estados Unidos. Após a deposição do então presidente João Goulart, os grupos militares liderados por Costa e Silva e por Castello Branco disputaram o comando do país.

Starling também é autora de Brasil: uma biografia (Companhia das Letras, 2015), com Lilia Moritz Schwarcz, de Ser republicano no Brasil Colônia: a história de uma tradição esquecida (Companhia das Letras, 2018), e organizadora de República e democracia: impasses do Brasil contemporâneo (Editora UFMG, 2017), entre outros.

A articulação no Edifício Avenida Central

De novembro de 1961 até meados de abril de 1964, parte considerável dos homens de negócios que passavam pelo Edifício Avenida Central adotava um comportamento diferente do habitual. Eles se encontravam ali quase todos os dias por motivação ideológica. Estavam dispostos a reservar horário e agenda para costurar do modo mais discreto possível a rede de conspiradores que se espalhara pelo país e os unira aos militares e às autointituladas “donas de casa”, lideranças parlamentares e governadores estaduais na causa comum do golpe de Estado. Durante 29 meses, frequentaram aquele lugar para preparar, coordenar e executar uma grande variedade de ações de natureza golpista em diversos formatos e com escopo amplo — algumas abertas, outras voltadas a um público restrito, as demais secretas.

Sem descuidar dos próprios negócios — ou, melhor dizendo, por isso mesmo —, aqueles homens se associaram para travar uma luta política. Sem dúvida eram membros da elite industrial e financeira, e quase todos mantinham algum tipo de vínculo com o capital transnacional ou com empresas multinacionais com filiais no Brasil. E eram também militantes engajados em uma organização recém-criada, de ingresso controlado e vida dupla — a oficina a que compareciam diariamente desde o final de novembro de 1961 para fabricar o golpe de Estado e tomar o comando do país. Sozi­nha, essa nova organização ocupava um conjunto de treze salas no 27º andar do Edifício Avenida Central.

Chamava-se Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes).

O papel estratégico do Ipes

Até a vitória do golpe de Estado, em 1964, o Ipes funcionou como um centro estratégico de liderança política e inteligência empresarial em rápida expansão. Contou com a intensa participação dos grandes complexos industriais e financeiros, baseados principalmente nos Estados Unidos e bastante empenhados em alargar seu espaço na economia brasileira. O Ipes “tinha de planejar […] muito mais do que executar. […] Tinha de ser o Estado-Maior”, definiu o engenheiro Abelardo Coimbra Bueno, proprietário da incorporadora Coimbra Bueno e Cia Ltda. e da empresa Agrobrasil S.A., que mantinha vínculos com a British American Tobacco.

A definição de Coimbra Bueno equacionou o foco na linha de direção de um centro estratégico no longo prazo. Não era sem motivo que ele tinha em mente a criação de um novo tipo de organização política; era necessário abrir uma oportunidade para que as deficiências aparecessem e a liderança surgisse. No fim das contas, para os interesses desse setor da elite tudo estava em jogo e dependia de eles mesmos assumirem de forma direta o controle do poder, de modo que seria preciso agir rápido — mas de maneira concertada. Como “Estado-Maior”, competia ao Ipes levar a cabo tanto a identificação quanto a instrumentalização dos objetivos estratégicos do grande capital para modificar a correlação de forças políticas em disputa e alcançar o comando do país.

Quem se reunia no 27º andar do Edifício Avenida Central sabia que não seria fácil. Estratégia significa pensar e proceder numa determinada conjuntura de modo a planejar e conduzir as operações necessárias para conquistar e consolidar posições de poder — quando avançar, recuar, atacar em profundidade ou manobrar pelos flancos, desferir a ação decisiva. Até então, não existia no Brasil uma agência política dotada de intencionalidade e premeditação suficientes nem provida de estrutura para levar a cabo essa tarefa de modo eficiente. Para ser mais exata: municiada de informação, método, análise e capacidade de operacionalização de resultados. O Ipes seria essa agência: o “Estado-Maior” que, por trás da rede de conspiradores, estabelece a conexão entre onde se está agora e aonde se pretende chegar, adéqua os meios e conduz a ação golpista. Surgiu pronto para dar o bote: em pouco mais de dois anos materializou seus objetivos num projeto de ocupação do Estado; ao mesmo tempo, transpôs o campo econômico e dirigiu a luta política que conduziu seus ativistas ao poder em abril de 1964.

Os interesses por trás da ruptura democrática

Um golpe de Estado não tem uma explicação única. Mas só se torna inteiramente compreensível quando se descobrem quais são os interesses que se organizam para executar a conquista do poder. Na prática, a criação do Ipes marcou o momento de passagem das tentativas de um setor empresarial de estabelecer dentro da lei a supremacia econômica de seus interesses para o ponto de ruptura com a democracia brasileira.

Tratava-se de um grupo que compartilhava laços de relacionamento profissional e, por vezes, vínculos de amizade ou familiares ampliados. Seus membros estavam habituados a se cruzar em clubes sociais e reuniões nos conselhos de administração ou associações patronais, além de dispor de conexão financeira internacional direta ou mediada por parceiros no exterior. Uma vez articulado pelo Ipes, o grupo tomou corpo, atacou de maneira diversificada e em escala crescente: orquestrou um combate ideológico, investiu dinheiro a valer, derramou uma enxurrada de propaganda meticulosamente engendrada para ser crível, formar opinião e alcançar gente em todos os setores da sociedade. Na prática, construiu a grande estratégia de longo prazo capaz de liquidar com o governo de João Goulart. Ainda mais surpreendente: eles concentraram sua energia política para fazer rodar, sob sua liderança e em estreita associação com uma facção das Forças Armadas bem estruturada na ESG, as engrenagens da máquina do golpe até a execução da sua fase final — a ocupação e a conservação do poder.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *