Uma sobrevivente da ditadura argentina rompe o silêncio

Sobrevivente da ditadura argentina rompe silêncio em novo livro

Cultura

Anos após viver na clandestinidade e fugir pelo interior da Argentina com o filho pequeno, Cristina, oficial do grupo de esquerda peronista Montoneros, foi capturada em maio de 1978. Detida extraoficialmente pelo Exército e submetida a torturas em um centro clandestino, seu destino parecia ser o de tantos outros militantes da luta armada: transformar-se em uma “desaparecida”.

O sinistro jargão da repressão denominava assim aqueles que eram sequestrados, torturados e assassinados por agentes do Estado. Vários foram arremessados ao mar nos chamados voos da morte ou enterrados em valas comuns, destino provável do marido de Cristina, Jorge, em 1975. Contudo, o desfecho dela foi distinto: conseguiu escapar do horror e relatou à escritora Teresa Donato como “desapareceu” duas vezes.

A publicação surgiu de um pedido de Carlos, filho da ex-guerrilheira cujo nome verdadeiro é Ana María Massochi, para que ela revelasse os acontecimentos anteriores à chegada da família a São Paulo, no início dos anos 1980. O apelo deu origem a Desaparecida duas vezes, obra que traz essa narrativa a público pela primeira vez.

O livro chega ao Brasil pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, com tradução de Paloma Vidal, coincidindo com os cinquenta anos do golpe de Estado na Argentina, responsável por 30 mil desaparecimentos e graves violações dos direitos humanos.

Um evento de lançamento das memórias ocorre no sábado, 14 de novembro, às 18h, na livraria Megafauna do Cultura Artística, situado no centro de São Paulo. O encontro conta com uma conversa entre a autora Teresa Donato, a própria Ana María Massochi e seu filho, o psicanalista Carlos Livieres, com mediação do escritor e jornalista Humberto Werneck.

A Argentina em convulsão

Como estudante na capital da província de Corrientes, Ana María integrou organizações sociais e políticas de esquerda nas periferias, em um contexto marcado por sucessões de golpes de Estado e disputas pelo legado de Perón, que retornava de um exílio de dezessete anos. O país já enfrentava atentados, assassinatos políticos e sequestros promovidos por grupos de extrema direita antes mesmo do golpe de março de 1976.

Militante das Fuerzas Armadas Revolucionarias, Ana María inialmente mal sabia manejar uma arma. As FAR se fundiram aos Montoneros, principal grupo de resistência à ditadura argentina, tornando-a, junto ao marido Jorge de Livieres, oficial da organização. Nesse período, nasceu Carlitos, filho do casal. O livro de Teresa Donato retrata o cotidiano de famílias guerrilheiras, intercalando preparativos de ações armadas com a rotina de festas, crises, vida sexual intensa e decoração de quartos de bebês.

Viúva e clandestina

Durante a tomada do Regimiento de Infantería de Formosa, em 5 de outubro de 1975, considerada a ação mais ousada da luta armada argentina e ocorrida antes do golpe, Jorge foi morto por soldados. Com documentos falsos e Carlitos no colo, Ana María precisou abandonar o lar e tentar viver anonimamente, sem deixar o posto nos Montoneros.

Apesar da alta patente, ela enfrentava o machismo estrutural nas organizações de esquerda, que discriminavam mulheres enquanto pregavam a construção do “novo homem”. Cenas como reuniões lideradas por ela, interrompidas para amamentar e trocar fraldas na sala ao lado, oferecem uma perspectiva inédita sobre a guerrilha latino-americana. Seu temperamento firme, capaz de silenciar os colegas homens, foi determinante para sua sobrevivência futura.

Desaparecida uma vez

O desaparecimento de militantes era diário. Sequestrados sem registro oficial, eram levados a mais de seiscentos centros clandestinos de detenção, onde sofriam torturas e eram mortos. Estima-se que 30 mil pessoas desapareceram entre 1976 e 1983, muitas vezes eliminadas ao serem lançadas de aviões no rio da Prata ou no oceano.

Em 1978, período pré-Copa do Mundo na Argentina, Ana María foi descoberta ao tentar atualizar documentos falsos, sendo encaminhada a um centro de detenção clandestino. Ali, enfrentou interrogatórios humilhantes, torturas com choques elétricos, socos e privação de sono, comida e banho.

Nas páginas do livro, a sobrevivente relata o cotidiano aterrorizante e o uso de mulheres capturadas como troféus de guerra pelos repressores. Ana María chegou a ser levada diretamente de sessões de tortura para boates e restaurantes refinados por um de seus algozes, Beto, antes de retornar à cela. Com o tempo, Beto afeiçoou-se a ela. “Assim, chegou o dia em que o Beto quis transar comigo”, relata.

“Eu sabia que isso ia acontecer.” O trecho descreve a relação não consensual entre sequestrador e refém que, paradoxalmente, viabilizou a sobrevivência de Ana María e de outras pessoas por quem ela intercedeu junto a Beto.

Posteriormente, Beto alugou um apartamento para mantê-la como amante em Buenos Aires. Ciente de que seria descoberta novamente, ela pediu documentos falsos para fugir com Carlitos, que estava com a avó. Os esforços para proteger a criança até o reencontro no Paraguai, no Rio de Janeiro e em São Paulo transformam o livro em um relato marcante sobre a relação entre mãe e filho na clandestinidade.

Desaparecida pela segunda vez

Sob a vigilância de Beto, a ex-guerrilheira refugiou-se em São Paulo, na Vila Madalena, vivendo seu segundo desaparecimento em meio à efervescência cultural da época. A ameaça do Plano Condor, cooperação entre ditaduras sul-americanas, mantinha exilados e agentes de inteligência em constante monitoramento.

O restaurante de empanadas e alfajores aberto por Ana María e dois sócios tornou-se ponto de encontro de cineastas, jornalistas e intelectuais, como o atual Martín Fierro. A ex-guerrilheira descreve com estranhamento o clima de abertura cultural paulistana do início dos anos 1980.

Livre de seu algoz apenas com o fim da ditadura argentina em 1983, ela silenciou sobre as memórias por décadas, ocultando-as até mesmo do filho. A insistência dele na idade adulta motivou o resgate das lembranças. A reconstituição contou com vozes complementares de familiares e amigos, ganhando forma definitiva após uma peça teatral de Teresa Donato.

O fim do silêncio

Mulheres violentadas e coagidas a colaborar com o regime militar, historicamente acusadas de traição por companheiros de guerrilha, passam a ser reconhecidas recentemente como vítimas do terrorismo de Estado na Argentina.

Ana María conclui, após diálogos com a autora e leituras sobre o tema, que a relação com Beto configurou estupro e sequestro, e não um romance, o que lhe causava profunda confusão e a fez silenciar por quase cinquenta anos.

Mesmo sentindo uma confusa “gratidão” por ter sobrevivido graças a Beto, ela optou por não o denunciar nos processos contra agentes estatais, mantendo-se afastada da política até a publicação do livro.

Aos críticos dos sobreviventes, ela responde com franqueza: “Não sou eu que vou julgar o que os meus companheiros fizeram. Deixo isso para os palpiteiros de plantão que nunca foram sequestrados e falam do alto da sua ética imaculada. É possível considerar traidor quem fala nessas condições? De verdade?”.

Desaparecida duas vezes ilumina aspectos complexos da história oficial, como a culpa por sobreviver, dilemas éticos impostos pelo terror e o peso de um longo silêncio.

Lançamento de Desaparecida duas vezes

Com Teresa Donato, Ana María Massochi e Carlos Livieres Mediação de Humberto Werneck Megafauna do Cultura Artística Sábado, 14 de novembro, às 18h Desaparecida duas vezes (Tinta-da-China Brasil), de Teresa Donato Tradução de Paloma Vidal; capa de Isadora Bertholdo 288 pp • R$ 112,90

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