O esquecido passado expansionista da Suécia

Como o poderoso império da Suécia ruiu após enfrentar a Rússia

Curiosidades

Muito antes de se consolidar mundialmente como um símbolo de neutralidade diplomática, bem-estar social e sede do Prêmio Nobel, a Suécia já foi uma das potências militares mais agressivas e temidas da Europa. Durante o século 17, as forças escandinavas ergueram um império mercantil e armamentista que controlou o Mar Báltico, estabeleceu entrepostos internacionais e encurralou potências vizinhas — em especial uma Rússia ainda fragilizada por profundas turbulências internas.

A crise russa e o apogeu escandinavo

A expansão russa havia ganhado tração décadas antes, no século 16, sob a liderança de Ivan IV. Conhecido como “O Terrível”, o governante adotou o título de “czar” inspirado nos césares de Roma, duplicou a extensão do território ao longo de 50 anos de reinado, subjugou khanatos de raízes mongóis e turcas e iniciou a marcha sobre a Sibéria. Contudo, sua morte em 1584 deixou um vácuo no poder.

Seu sucessor direto, Teodoro, mostrou-se um governante fraco e faleceu sem deixar herdeiros. O colapso desencadeou a Era dos Distúrbios (1598-1613), período marcado por violentos conflitos entre a nobreza feudal (os boiardos) e os camponeses, além do surgimento de pretendentes que se declaravam filhos ilegítimos do antigo monarca. De acordo com estimativas do historiador Matthew White na obra O Grande Livro das Coisas Horríveis, a instabilidade cobrou um tributo de 5 milhões de vidas. Dessa anarquia emergiu a dinastia Romanov, que permaneceria no comando até 1917, mas que à época herdou uma nação cristã ortodoxa vulnerável, cercada por poloneses católicos e pelo poderio protestante sueco.

A Suécia, por sua vez, vivia seu auge econômico impulsionada pela mineração, liderando a exportação de ferro e cobre no norte europeu. Essa pujança financeira custeou as ambições de Gustavo Adolfo, rei de 1611 a 1632 e considerado o pai do Império Sueco. O monarca foi um dos grandes vencedores da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), sangrento conflito religioso cujas baixas em certas regiões superaram os índices das guerras mundiais do século 20. Aproveitando o ímpeto militar, Estocolmo tomou terras de lituanos, poloneses e russos, ergueu fortificações na África e fundou colônias distantes, como a Nova Suécia, às margens do Rio Delaware, na América do Norte.

O confronto entre Pedro, o Grande, e Carlos XII

A correlação de forças começou a mudar com a ascensão do quinto czar Romanov, Pedro (1672-1725), mais tarde chamado de “O Grande”. Empenhado em modernizar e europeizar seu país, Pedro fundou oficialmente o Império Russo e tomou uma decisão ousada: projetar uma nova capital no Golfo da Finlândia, em terreno sob domínio legal dos suecos.

A construção de São Petersburgo mobilizou prisioneiros e criminosos que drenaram os pântanos locais a um custo humano altíssimo, com cerca de 100 mil mortes registradas nas obras. Consciente de que a ocupação geraria represálias, o czar se antecipou e firmou uma coalizão com a Saxônia e o Reino da Dinamarca para confrontar a Suécia na Grande Guerra do Norte, deflagrada em 1700.

O trono sueco era então ocupado por Carlos XII, monarca dotado de excepcional habilidade militar. Inicialmente, o jovem rei humilhou as forças russas na Estônia, mesmo contando com um exército cinco vezes menor. Na sequência, invadiu a Polônia, conquistou a cidade saxã de Dresden e rumou para o sul para forjar aliança com os guerreiros cossacos, descontentes com Moscou.

O inverno devastador e o desfecho do império

O destino da expedição sueca, contudo, sucumbiu à meteorologia. O inverno de 1709 foi considerado o mais rigoroso dos últimos cinco séculos, minando a resistência até mesmo dos soldados escandinavos mais experientes. Enfraquecidas e reduzidas pelo frio extremo, as tropas de Carlos XII foram batidas. O soberano precisou fugir, enquanto o contra-ataque russo avançava devastando a Finlândia — território que viu 20% de sua população morrer em decorrência da fome generalizada. O monarca sueco morreria em combate dez anos depois, em 1719.

O término formal da Grande Guerra do Norte ocorreu em 1721. Segundo dados do sociólogo Boris Urlanis, a disputa custou ao menos 370 mil vidas. Derrotada e esgotada, a Suécia transferiu aos russos o domínio definitivo sobre porções territoriais que correspondem atualmente a áreas da Finlândia, Estônia, Letônia e da própria Federação Russa.

O tratado consolidou de vez a Rússia como potência global e decretou o fim das ambições expansionistas suecas, redirecionando os rumos do país nórdico para a estabilidade e o desenvolvimento que o caracterizam hoje. A nova metrópole russa, São Petersburgo, preservou a condição de capital imperial por mais de dois séculos, até que a Revolução de 1918 transferiu o centro administrativo de volta a Moscou. Já a vizinha Finlândia, que no século 19 acabaria integralmente anexada pelo czarismo, manteve uma desconfiança histórica com os russos que culminou, em 2023, na sua adesão à aliança militar da Otan frente ao conflito na Ucrânia.

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