O México me ensinou que a morte é um caminho com volta

Como o México me ensinou a enxergar a morte de outra forma

Saúde

A moradia na Cidade do México revelou que o tradicional Día de Muertos não se resume a uma única data no calendário, mas a uma longa temporada de preparação, afeto e conexão profunda com aqueles que já se foram. A experiência no país desafia a visão eurocêntrica que impõe o silêncio e a sobriedade diante do fim da vida, mostrando que a partida pode ser celebrada com cores, sabores e muita convivência.

Na cultura mexicana, a proximidade com o fim da existência transparece logo no idioma. O uso de expressões como “mis muertos” (meus mortos) ou “mis defuntitos” (no diminutivo) aproxima naturalmente as pessoas de seus entes queridos que partiram. Em comunidades de Oaxaca, por exemplo, a festividade envolve rituais comunitários rigorosos. Sebastiano Pablo Gomez, de 73 anos, explica que o período exige banhos purificadores e roupas novas antes da madrugada do dia 2 de novembro. “Eles comem primeiro e depois a gente”, relata sobre a recepção às almas, destacando que a morte no país possui um caráter coletivo e reconciliador. “É uma alegria, um dia para recordar e reconciliar, por isso a gente dança. É uma felicidade única uma vez ao ano”, complementa.

A cosmovisão local também está profundamente ligada aos ciclos da terra e à resistência histórica indígena. Na região de San Juanico Nextipac, a curandeira e parteira Cilintli aponta que o calendário tradicional possui 18 meses e que o período dos falecidos coincide com o repouso da terra, marcado pelo frio e pelas flores amarelas. “Nós celebramos os mortos durante 2 meses, e não 2 dias”, conta. Em sua residência, velas e esculturas pré-hispânicas de barro ajudam a invocar a energia vital, chamada de Teo. “Esse é o momento do ano em que se permite que os mortos entrem e eles se alimentam do cheiro”, afirma, descrevendo o altar como uma mesa de doces.

A intensidade da data também é vivenciada por Elías Navarrete, conhecido como guardião das memórias em Tepoztlán. Aos 70 anos, ele mantém viva a tradição ao preparar pratos típicos como o mole e o arroz com leite para receber a esposa falecida, cuja oferenda é montada após o primeiro ano de luto, período necessário para que a alma esteja pronta. Na madrugada, o som de músicas preferidas embala os panteões sob o brilho das luzes.

Elemento indispensável em todas as regiões, a flor de Cempasúchil colore as ruas e altares para guiar os espíritos. A agricultora Aurélia Tlapaya, de 52 anos, cultiva a planta desde o plantio inicial em junho até a colheita para o mercado. “Volto para casa, tenho que esperar nossos muertitos”, diz. No fim, as pétalas espalhadas pelo chão formam trilhas que mostram o caminho de volta, revelando que, no México, o fim da vida não é um ponto final, mas um convite contínuo à convivência.

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