O que a eleição nos ensina sobre o encontro geracional

O que o pleito recente nos ensina sobre o atrito e a união entre gerações

Educação

O calvário dos pais durante a adolescência dos filhos é conhecido. Se a criança pequena dá um trabalho desumano, o jovem dá, além de trabalho, preocupação e desgosto.

Preocupação porque a empáfia do adolescente é maior do que sua experiência, desgosto porque ele começa a nos desprezar. Alcançado esse umbral hormonal e etário, as intenções dos mais velhos são tratadas com desconfiança, suas opiniões combatidas de saída, sua inteligência, sob suspeita. Do dia pra noite, pais passam de heróis a vilões.

Até aí o prognóstico é bom. A iconoclastia adolescente é sinal de que os filhos já podem se emancipar dos pais e mães inflacionados da infância, época na qual seria doloridíssimo reconhecer a fragilidade das pessoas de quem dependem.

O remédio é necessário, porém amargo para cuidadores que confundem emancipação com falta de amor. Em boas condições de temperatura e pressão, a rebeldia se baseia na confiança de que o amor parental sobreviverá à adolescência.

O caldo entorna quando os pais dobram a aposta na ascendência sobre os filhos, incapazes de escutá-los, obrigando-os a se afastar ainda mais, seja pelo confronto, seja pelo desprezo. Temos um espelhamento aqui: o jovem só vê nos pais o anacronismo, os pais só veem no jovem a imaturidade.

Cada geração enxerga os limites da outra e permanece cega para os próprios. De fato, velhos têm que se virar para acompanhar seu tempo, jovens não viveram o suficiente para acumular experiências. Se a emancipação exige que os filhos deixem de idealizar os mais velhos, a maturidade implica que os adultos não subestimem os jovens.

Nesta eleição, tivemos um exemplo de como o choque geracional pode ser vivido como encontro. De um lado, os nativos digitais navegando nas redes (antis)sociais, onde narrativas políticas produzem efeitos reais.

Vítimas desses veículos, mostram-se também capazes de manipulá-los a seu favor. “Dobrando a Meta” revelou que big techs bilionárias também podem beber do próprio veneno.

De outro lado, os velhos que se lembram do tempo anterior às redes guardam duas memórias que os jovens não têm. Uma diz respeito aos presos sem direito a julgamento ou defesa durante a ditadura: tortura e assassinato eram práticas aceitas de um Estado sem lei. (Essa arbitrariedade persiste, atingindo principalmente jovens negros e periféricos, mas pode ser denunciada e combatida.)

A outra memória diz respeito ao período anterior ao governo FHC, quando o acesso a políticas públicas era muito mais restrito. Essas políticas, ampliadas nos governos Lula, ajudaram a abrir caminhos antes inacessíveis para que filhos de garis e pedreiros se tornassem médicos, engenheiros ou advogados. Ferramentas foram criadas contra nossa desigualdade de inspiração escravocrata.

Jovens incentivaram idosos a usar as redes para dar seu recado, reconhecendo a importância da sua contribuição, velhos lembraram os jovens de que a luta pela democracia nunca está ganha.

Rejuvenescemos escutando os mais novos, apaziguamos a angústia deles quando mostramos que a história está aí para ser escrita.

As cenas de senhores e senhoras cambaleantes indo às urnas escorados pelos mais jovens ficarão em nossa memória como exemplo do que o encontro geracional pode ter de melhor.

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