Às vésperas de completar 90 anos em 2027, a União Nacional dos Estudantes (UNE) enfrenta um impasse prolongado sobre o futuro do terreno de sua sede histórica, localizada na Praia do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro. O local abriga há quase dez anos um edifício incompleto e sem destinação definida. Enquanto a principal entidade estudantil do país sinaliza o interesse em retomar as construções, a prefeitura carioca avalia um pedido de licença para uso comercial do imóvel protocolado pela própria organização.
O prédio encontra-se vazio e com aspecto de abandono. Durante visitas realizadas em setembro e outubro, a reportagem constatou a ausência de pessoas no local, que hoje conta apenas com um tapume metálico cobrindo o térreo. Em abril de 2025, o vereador Pedro Duarte (PSD) enviou um ofício à administração municipal solicitando a desapropriação do espaço por hasta pública, modalidade de leilão prevista no novo Plano Diretor para áreas ociosas.
“Chega a ser inacreditável que um imóvel localizado em uma região nobre da cidade, em frente a um dos principais parques da cidade, com vista para o mar, e muito próximo ao metrô esteja no estado em que se encontra, chegando a ser identificado como Esqueleto da UNE”, diz Duarte no ofício.
Em nota oficial, o município descartou a desapropriação no momento. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento informou que há um processo em andamento para analisar a viabilidade de conceder uma destinação comercial à estrutura já erguida, que possui cerca de cinco pavimentos. Matheus das Neves, tesoureiro da UNE, confirmou que o pedido foi feito pela entidade com o objetivo de utilizar a torre principal para fins comerciais e o edifício dos fundos como centro de exposições.
“Já estamos em tratativas junto a prefeitura para aprovação de novo projeto e retomada das obras”, afirmou o tesoureiro.
Histórico de resistência e destruição
O prédio original demolido em 1981 marcou a história da repressão da ditadura militar brasileira. O local foi alvo de ataques ao longo dos anos: metralhado por um movimento anticomunista em 1962, incendiado na primeira madrugada do golpe de 1964, além de pichado e vandalizado durante o regime. Foi também no terceiro andar daquela edificação que nasceu e floresceu o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, ativo entre 1961 e 1964 com a participação de grandes ícones da cultura nacional, como Nara Leão, Carlos Lyra, Leon Hirsman e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha.
O terreno foi oficialmente doado à UNE em 1994 pelo então presidente Itamar Franco. Contudo, devido a longos imbróglios judiciais, a área permaneceu abandonada e transformada em um estacionamento irregular até 2007, ano em que estudantes realizaram uma invasão para cobrar a posse definitiva na Justiça.
Os recursos federais e a paralisação
Entre 2010 e 2011, os governos dos presidentes Lula e Dilma repassaram R$ 44 milhões em valores da época à UNE. Uma primeira parcela de R$ 30 milhões foi liberada em 2010, seguida por outros R$ 14 milhões no fim de 2011, como forma de reparação pelos danos causados pela ditadura, incluindo o incêndio na antiga sede. O projeto original previa um prédio de 12 pavimentos com museu, sala de cinema, teatro e salas comerciais para locação.
Uma maquete virtual da obra está disponível na internet há 14 anos, com a promessa inicial de entrega antes dos Jogos Olímpicos de 2016. A construção começou em 2014 e atingiu cinco pavimentos até 2018, momento em que estagnou completamente. As placas informativas foram retiradas.
“A crise imobiliária e da construção civil no Brasil e no Rio, fruto da Operação Lava-Jato impôs dificuldades ao negócio, sendo insuficientes as indenizações para a conclusão do prédio”, afirma Matheus das Neves.
O repasse de verbas também gerou atritos políticos na época, chegando a ser alvo de um pedido de CPI articulado pelo então deputado federal Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que acabou cancelado.
Outros marcos e o cenário atual
A antiga sede localizada na rua do Catete, 243 — que abrigou a entidade de 1976 até os anos 1990 e foi palco do movimento “Fora Collor” em 1992 —, também passa por mudanças. Administrado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), o complexo teve um muro de um dos anexos desabado em setembro. A instituição informou que obteve autorização para demolir a estrutura afetada, mas o conjunto principal será preservado, e um processo licitatório já foi iniciado para contratar uma empresa especializada na demolição com cuidados técnicos rigorosos.
Enquanto organiza os preparativos para o aniversário de 90 anos, que incluirá uma homenagem no desfile da escola de samba Império Serrano no próximo carnaval, a direção da UNE avalia o fortalecimento do movimento estudantil decorrente da mobilização nacional recente.
“Em um momento em que a disputa política parecia cada vez mais dispersa ou somente concentrada nas redes sociais, os estudantes recolocaram a organização coletiva e a ocupação das ruas no centro da vida democrática. Então nós tivemos pela primeira vez muitos estudantes participando pela primeira vez de uma reunião de centro acadêmico, de assembleia. Isso revela uma disposição de participação”, afirma a presidente da UNE, Bianca Borges.
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