O sal da terra

Stefano mancanuso relê são francisco em novo livro sobre plantas

Cultura

Na obra O cântico da terra, com tradução de Regina Silva e lançamento pela Ubu em 2026, o renomado fundador da neurobiologia vegetal Stefano Mancuso traz uma perspectiva inédita sobre o célebre poema “Cântico das criaturas”, escrito por São Francisco de Assis no século 13.

Visto agora sob a ótica de um manifesto ecológico, o livro utiliza a composição histórica para debater os laços que os seres humanos podem estabelecer com a flora e com o meio ambiente de maneira ampla. O autor faz isso ao contemplar o “irmão sol”, a “irmã lua”, o “irmão vento”, a “irmã água”, o “irmão fogo” e a “nossa irmã mãe terra”, mesclando conceitos de divulgação científica com episódios de sua trajetória pessoal.

Além disso, a publicação convida o público a meditar sobre temas como cooperação, comunidade, finitude e transformação por meio de seções voltadas a “aqueles que perdoam” e “nossa irmã a morte corporal”.

Mancuso possui outras obras de destaque pela mesma editora e tradutora, a saber: Revolução das plantas: um novo modelo para o futuro (2019), A planta do mundo (2021), A incrível viagem das plantas (2022), Nação das plantas (2024) e Fitópolis (2026).

Trecho de O cântico da terra, de Stefano Mancuso

Não é banal compreender a eficiência sofisticada das plantas na difícil empreitada de capturar a luz. Para mim, o dia da iluminação (de novo a luz) ocorreu durante uma das minhas primeiras viagens de campo como jovem doutorando. Minha tarefa era medir a fotossíntese em oliveiras pertencentes a variedades com origens geográficas diversas. Era um trabalho longo, repetitivo e cansativo: eu tinha que monitorar a planta, medindo-a a cada trinta minutos, do amanhecer ao anoitecer.

Não por acaso essa incumbência cabia aos jovens doutorandos. O instrumento para medir a fotossíntese, embora descrito como portátil, era tudo menos portátil. Consistia em uma peça metálica enorme, de mais de dez quilos — felizmente, hoje esses aparelhos são muito mais leves —, que o pesquisador carregava no ombro o dia todo, de árvore em árvore. Depois da primeira hora, até os mais treinados começavam a sentir dores e, no final do expediente, cada músculo do corpo gritava de cansaço. E não era só o instrumento que devíamos carregar: havia baterias sobressalentes, muito pesadas, que serviam para manter o instrumento funcionando o dia todo.

E depois era preciso medir, e isso também era fatigante: era preciso se esticar, se curvar e se inclinar para alcançar as melhores folhas, transferindo o peso de um ombro para o outro enquanto anotava as medidas. Enfim, era um trabalho que exigia não só atenção, mas também um bom preparo físico. Os resultados, porém, como costuma acontecer quando se trabalha com plantas, compensam as atribulações. Como sempre se aprende alguma coisa inusitada, qualquer inconveniente é logo esquecido.

Fui para o campo munido de um equipamento de medição da fotossíntese, baterias sobressalentes, um mapa das árvores, um caderno de campo, um lápis, fitas para amarrar nos pecíolos das folhas, alguns litros de água e algo para comer — parafernália que pesava mais de vinte quilos. Minha principal preocupação era completar o enorme número de medições previstas a cada saída. Para se ter uma ideia clara da fotossíntese ao longo do dia, em junho era preciso ficar no campo das seis da manhã às nove da noite: quinze horas seguidas.

Bem, sempre tive dificuldade para acordar muito cedo. Considerando que primeiro era necessário pegar o equipamento no laboratório e depois viajar cerca de uma hora até o campo das oliveiras, eu deveria acordar por volta das quatro da madrugada. Mas que diferença faria se eu começasse as medições às sete em vez das seis? Eu ganharia uma hora de sono, e naquele horário as plantas com certeza estariam em repouso.

Foi nessa ocasião que me dei conta da eficácia das plantas em gerenciar a luz. A oliveira não é, de forma alguma, uma planta altamente fotossintética: ela evoluiu para suportar períodos prolongados de seca e climas quentes, e teve que abrir mão de algo. Sua eficiência fotossintética é aproximadamente metade da apresentada pela videira, para ficar no âmbito das plantas simbólicas da civilização mediterrânea. No entanto, na penumbra das sete da manhã, as oliveiras de que eu deveria cuidar já estavam quase saturadas de luz. Ou seja: elas não precisavam de mais luz. Na verdade, às dez da manhã, no clima de verão do centro da Itália, a oliveira tem o problema oposto: recebe luz demais. No sul do Mediterrâneo — na Grécia, na Sicília e no Norte da África —, a saturação de luz ocorre ainda mais cedo, e durante a maior parte do dia a árvore realiza fotossíntese a uma fração minúscula de sua capacidade.

Naquela primeira incursão, muitos anos atrás, perdi um dia de medições por causa do meu atraso, mas aprendi uma lição que me serviu para o resto da vida: nunca subestimar o potencial das plantas de “fixar a luz”. Como Kliment Timiryazev, o grande botânico russo e estudioso da fotossíntese, definiu magistralmente, as plantas são, de fato, a ligação entre o Sol e a Terra; o maravilhoso instrumento que a vida usa para transformar a luz em alimento.

Não é coincidência, pois, que Francisco comece seu “Cântico” com “irmão sol”. Ele é, sem dúvida, o principal motor da vida na Terra, e o fato de não nos alegrarmos com sua mera presença, como o faz Francisco, diz muito sobre nossa incompetência para compreender a realidade. Não é que simplesmente não nos alegramos com o que temos: nem nos damos conta disso.

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