Pesquisadores desenvolveram, pela primeira vez, uma técnica cirúrgica voltada para reconstruir o clitóris de mulheres que enfrentaram o câncer de vulva. Embora a restauração da vulva — a área externa da genitália feminina — seja realizada há anos com o objetivo de assegurar as funções urinária e vaginal, o reparo do órgão do aparelho reprodutor feminino dedicado ao prazer sexual ainda não havia recebido o mesmo nível de atenção médica.
A nova abordagem foi detalhada em um artigo veiculado na publicação científica Gynecologic Oncology por especialistas do Centro Médico da Universidade Radboud, situado na Holanda. O estudo leva as assinaturas da ginecologista oncologista Mieke ten Eikelder e do cirurgião plástico Tim Nijhuis, entre outros pesquisadores.
“Até agora, a lesão era simplesmente fechada, e o clitóris desaparecia sob uma camada de pele, com pouca atenção à qualidade de vida ou à possibilidade de o orgasmo ainda ser alcançado”, diz Ten Eikelder.
A extração de um tumor na zona do clitóris frequentemente resulta na amputação parcial ou total da estrutura, provocando a perda da sensibilidade erógena, modificações na autoimagem corporal e um profundo impacto psicossexual, conforme apontam os especialistas.
Na Holanda, aproximadamente 450 mulheres são diagnosticadas com câncer de vulva anualmente. Em território brasileiro, a quantidade oscila entre 1.500 e 2.000 casos, de acordo com dados do DataSUS.
A demora para o surgimento de um procedimento desse tipo decorre da forma como a oncologia tratou a doença historicamente, priorizando a remoção integral do tumor e a preservação da vida da paciente, pontua Alexandre Piassi Passos, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
“O interessante é que técnicas de preservação e reconstrução peniana após o câncer são estudadas e utilizadas há décadas. Esse trabalho mostra que precisamos dedicar à reconstrução genital feminina a mesma atenção que historicamente dedicamos à masculina”, diz Passos.
Os responsáveis pelo estudo traçam o mesmo paralelo. Os primeiros registros sobre a reconstrução do pênis em decorrência de câncer datam de 1987, e atualmente as cirurgias preservadoras do órgão representam uma prática consolidada, apresentando taxas de sobrevida equiparáveis às de intervenções mais agressivas e garantindo melhores resultados funcionais, tanto urinários quanto sexuais.
Desafios anatômicos e incidência
O clitóris possui cerca de 10 centímetros de extensão, mas apenas sua extremidade — a glande — permanece visível. O restante do órgão localiza-se sob a pele vulvar, rodeado por uma rede de nervos e vasos sanguíneos que demandam total preservação. Os autores recordam que a anatomia do orgasmo feminino permaneceu insuficientemente estudada por um longo período.
Considerado raro, o câncer de vulva representa cerca de 5% dos tumores ginecológicos em todo o mundo. Tradicionalmente associado a mulheres com mais de 60 anos devido a afecções crônicas de pele na região, o artigo aponta um avanço na incidência e diagnósticos em faixas etárias mais baixas. No Brasil, médicos têm feito alertas sobre o aumento de ocorrências em jovens, quadros frequentemente associados ao HPV.
A recuperação da vida sexual figura entre as principais preocupações das pacientes, destaca Passos, evidenciando que o tema impacta diretamente a qualidade de vida.
Como funciona o método
O procedimento emprega a técnica Foldès, originalmente desenvolvida para atender mulheres que sofreram mutilação genital. Após a erradicação do tumor com margens seguras de segurança, o cirurgião secciona o ligamento que fixa o clitóris ao osso do púbis. Esse passo viabiliza o reposicionamento do tecido remanescente sem danificar vasos e nervos. A nova ponta é revestida por um enxerto de mucosa da parte interna da bochecha — um tecido com características semelhantes ao da vulva —, enquanto uma nova capa de pele é reconstruída para simular o prepúcio.
A intervenção acrescenta cerca de 15 minutos ao tempo total da cirurgia, período em que o cirurgião plástico extrai o enxerto da boca da paciente enquanto o ginecologista atua na região vulvar. Inicialmente, a equipe médica utilizava pele da própria vulva, mas relatos de sensibilidade reduzida por parte de algumas pacientes motivaram a preferência pela mucosa bucal.
A pesquisa acompanhou 18 mulheres com idade mediana de 58 anos. Desse total, 16 relataram ter recuperado a capacidade de alcançar o orgasmo clitoriano após a cirurgia, em um intervalo mediano de 3,5 meses (com variação de 1 a 12 meses). As duas pacientes que não obtiveram sucesso haviam passado pelo enxerto com pele comum. Apenas duas voluntárias apresentaram complicações decorrentes da reconstrução, e nenhuma registrou recidiva local do tumor durante o período de monitoramento, que variou de 6 a 84 meses.
“No início, o clitóris pode ficar hipersensível ou, ao contrário, menos sensível. Mas a recuperação costuma ser ótima após um ano”, afirma Ten Eikelder.
Apesar dos avanços, os resultados ainda são considerados preliminares. O estudo possui amostra reduzida, foi conduzido em um único centro médico, carece de um grupo de controle e apoia-se em relatos subjetivos das pacientes. Passos ressalta que não é cabível garantir a restauração da função em todos os casos, visto que a viabilidade da reconstrução depende diretamente das dimensões do tumor e da quantidade de tecido clitoriano preservado.
A metodologia pode ser implementada no Brasil, uma vez que se baseia em técnicas já consolidadas na cirurgia reconstrutiva e não demanda tecnologias inacessíveis, avalia Passos. Ele recomenda que a aplicação comece em centros de referência, mediante capacitação adequada e integração entre cirurgiões oncologistas e plásticos.
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