Pessoas que se lembram de tarefas inacabadas mesmo depois de um dia cheio podem estar experimentando um fenômeno estudado pela psicologia há quase um século

Por que lembramos de tarefas inacabadas? Conheça a ciência por trás disso

Eventos

Mesmo após o término do expediente, ao tentar preparar o jantar ou relaxar, é comum que uma atividade deixada pela metade continue rondando os pensamentos, seja um relatório interrompido, uma mensagem não respondida ou uma conversa inconclusiva. Esse incômodo está diretamente associado a um conceito investigado pela psicologia há cerca de cem anos: o efeito Zeigarnik. Contudo, embora a noção tenha se popularizado amplamente, investigações recentes apontam que a dinâmica entre a memória e as pendências diárias é consideravelmente mais complexa do que se imaginava.

Origens do conceito na década de 1920

O termo homenageia a psicóloga Bluma Zeigarnik, que analisou o tema na Universidade de Berlim durante os anos 1920. Motivada pelas análises de Kurt Lewin sobre comportamento e motivação, ela buscou entender se atividades interrompidas geravam recordações mais fortes do que as finalizadas. Durante o experimento, os voluntários executavam diversas tarefas, sendo que algumas delas sofriam interrupções prévias.

No ano de 1927, Zeigarnik divulgou conclusões apontando que os participantes recordavam muito mais das atividades interrompidas do que daquelas concluídas. A justificativa apresentada na época apontava para uma tensão psicológica gerada por uma intenção ainda pendente. A teoria defendia que tal tensão preservaria a atividade acessível na mente até a sua total conclusão. O estudo original pode ser consultado em On Finished and Unfinished Tasks, publicado na revista Psychologische Forschung.

O papel dos objetivos e a relação com o efeito Ovsiankina

Uma justificativa viável para o fato de pendências continuarem ocupando espaço mental reside na relevância dessas obrigações para os nossos objetivos. No momento em que uma ação é interrompida, o indivíduo ainda precisa buscar um momento propício para finalizá-la. Esse propósito pode se manter ativo, ressurgindo durante pausas, mediante lembretes ou diante de contextos cotidianos que façam a pessoa resgatar aquela responsabilidade na memória.

Esse comportamento guarda proximidade, embora não seja idêntico, com a tendência de reiniciar afazeres interrompidos, batizada de efeito Ovsiankina. Enquanto o efeito Zeigarnik aborda a suposta vantagem mnemônica para pendências, o efeito Ovsiankina descreve a propensão de retornar a uma atividade interrompida sempre que surge uma oportunidade. Uma revisão sobre a ciência das interrupções explica que esses fenômenos foram investigados separadamente desde os estudos históricos de Lewin e seus colaboradores.

O efeito Zeigarnik é universal?

Apesar de ter se consolidado como uma justificativa corriqueira para a incapacidade de esquecer obrigações pendentes, o efeito Zeigarnik falhou em ser replicado de maneira consistente ao longo de diferentes testes. Determinados levantamentos identificaram vantagens na memória para afazeres interrompidos, enquanto outros não apontaram disparidades expressivas entre tarefas finalizadas e inacabadas. Tais desfechos parecem oscilar conforme variáveis como o nível de envolvimento dos voluntários, a tipologia da atividade e o panorama experimental.

Uma metanálise publicada em 2025 na revista Humanities and Social Sciences Communications reuniu estudos sobre o efeito Zeigarnik e o efeito Ovsiankina. Os pesquisadores não encontraram uma vantagem geral de memória para tarefas interrompidas, embora tenham observado uma tendência mais consistente de retomada das atividades. A conclusão é importante porque mostra que o efeito Zeigarnik não deve ser tratado como uma regra universal da memória humana.

Memória não é sinônimo de execução

Manter um compromisso constantemente ativo na mente não assegura sua devida realização. O ato de recordar uma obrigação, achar um horário para executá-la e efetivamente finalizar a tarefa representam etapas distintas. Um indivíduo pode persistir pensando em um compromisso devido à sua urgência ou relevância, mas ainda assim esbarrar em obstáculos para dar início ou término à demanda.

Por esse motivo, o efeito Zeigarnik não deve ser encarado como o único motivador para quadros de ansiedade, procrastinação ou falta de foco. A permanência de uma pendência no consciente pode vincular-se a múltiplos aspectos, compreendendo estresse, planejamento, atenção e prioridades. Embora pareça óbvio que afazeres incompletos fiquem mentalmente ativos, o respaldo científico reforça a necessidade de cautela ao interpretar o fenômeno, respeitando os limites das provas atuais.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *