Uma controversa teoria que atravessa gerações voltou a ganhar força: pesquisadores da Universidade Cumhuriyet de Sivas, na Turquia, estão analisando uma formação geológica em formato de embarcação para verificar se o local abriga os restos da Arca de Noé. O projeto, realizado em parceria com o grupo cristão norte-americano Noah’s Ark Scans — que promove o local como a morada da embarcação bíblica desde pelo menos 2021 —, reacendeu o debate e viralizou nas redes sociais.
Composta por material sedimentar rico em óxidos de ferro, a estrutura natural conhecida como Durupınar fica nos arredores de Doğubayazıt, a poucos quilômetros da fronteira com o Irã. Embora equipes de laboratório mantenham os testes em andamento e apontem dados preliminares que poderiam sugerir uma estrutura naval, boatos na internet e matérias internacionais têm sido taxativos ao declarar que o relevo é obra humana e “100% não geológica”. As avaliações formais da universidade, contudo, devem se estender até 2027.
Décadas de buscas e expedições
A fama da área começou em 1959, quando İlhan Durupınar, capitão do Exército turco, identificou a silhueta de um navio em registros aéreos. Como a formação fica perto do pico chamado Monte Ararat desde a Idade Média — apontado no livro de Gênesis como o ponto onde a arca atracou após o dilúvio —, surgiu a hipótese de que seriam destroços petrificados.
No ano seguinte, em 1960, uma expedição financiada pela Fundação de Pesquisa Arqueológica dos Estados Unidos viajou até a região. O grupo contava com a liderança do evangelista televisivo George Vandeman e com a perícia em mapeamento aéreo de Arthur Brandenberger. A empreitada virou notícia na revista LIFE em setembro de 1960, mas o desfecho desanimou os fiéis: os exames acabaram por “não revelar nenhum indício de que o objeto fosse de origem humana”, classificando o local como um fenômeno estritamente natural.
A retomada das teorias amadoras
O tema adormeceu até o fim dos anos 1970, quando o enfermeiro anestesista e arqueólogo amador Ron Wyatt resolveu fazer investigações próprias no ponto geológico. Wyatt sustentou ter identificado paredes, conveses, ferro e madeira petrificada por meio de radares, além de associar rochas locais a âncoras de estabilização do navio.
As ideias influenciaram outro pesquisador amador dos EUA, David Fasold, que chegou a lançar um livro em 1988 defendendo a tese. Porém, anos mais tarde, Fasold refez suas análises ao lado do geólogo Lorence Collins e admitiu publicamente o equívoco em um artigo científico. Na ocasião, registrou que “a suposta Arca perto de [Doğubayazıt] é uma formação rochosa totalmente natural. Não pode ter sido a Arca de Noé, nem mesmo um modelo construído pelo homem”.
A comunidade geológica reforça essa conclusão. Especialistas como Murat Avcı explicam que o relevo se formou a partir de um expressivo bloco de calcário deslocado por deslizamento de encosta e esculpido por agentes naturais e fluxos de terra. Testes comprovaram que a suposta madeira não passa de rocha comum, as peças de ferro são materiais vulcânicos desgastados pelo tempo e os compartimentos internos refletem fraturas geológicas rotineiras.
A tradição do dilúvio e a literatura antiga
Mais do que uma caçada arqueológica, a insistência em torno de Durupınar expõe a força das narrativas sobre catástrofes universais. Especialistas apontam que a narrativa bíblica de Noé se conecta diretamente com lendas mesopotâmicas bem mais antigas do Oriente Próximo.
Relatos semelhantes já apareciam no Épico de Atrahasis, datado do segundo milênio antes de Cristo, e na famosa Epopeia de Gilgamesh, na qual o personagem Utnapishtim sobrevive a uma imensa inundação ao erguer um barco protetor.
Enquanto os mitos mesopotâmicos mostram divindades exterminando a humanidade pelo excesso de ruído, o texto do Gênesis inova ao colocar a corrupção moral e a violência como causas centrais do castigo divino. A conclusão hebraica também opta pela renovação: Deus ordena que os descendentes de Noé prosperem, abençoando o pacto da continuidade da vida. Ao buscar comprovar literalmente a embarcação em rochas turcas, o público muitas vezes ignora o valor literário e reflexivo dessas antigas tradições culturais sobre recomeços.
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