A descoberta de um dente fossilizado de um parente extinto das capivaras no coração do Deserto do Atacama, no norte do Chile, colocou em xeque a teoria de que o local sempre foi uma das regiões mais secas da Terra. O achado paleontológico indica que, durante o final do Mioceno — entre 10 milhões e 5 milhões de anos atrás —, a área contava com água abundante e abrigava ecossistemas úmidos.
Identificado no sítio arqueológico de El Morro, o fóssil pertenceu a um roedor do gênero Cardiatherium, que habitou a região há aproximadamente 9 milhões de anos. Assim como as capivaras contemporâneas, esses animais tinham hábitos semiaquáticos e dependiam diretamente de rios e lagos para se alimentar, reproduzir e descansar. A presença da espécie confronta estimativas anteriores de que a aridez extrema da região teria se estabelecido entre 47,8 milhões e 33,9 milhões de anos atrás, no período entre o Eoceno médio e tardio — cerca de 20 milhões de anos antes do surgimento da Cordilheira dos Andes.
Indícios de uma floresta subtropical
Atualmente, o Atacama sofre com uma barreira geográfica severa: a Cordilheira da Costa bloqueia a umidade vinda do Oceano Pacífico a oeste, enquanto a Cordilheira dos Andes impede a passagem das chuvas do Atlântico a leste. Aliadas a correntes marítimas frias e sistemas de alta pressão, essas condições tornam a precipitação quase nula. No passado geológico, contudo, o panorama era radicalmente diferente.
Além da peça dentária, os cientistas encontraram outros elementos que reforçam a existência de um ambiente bastante úmido. A camada de sedimento onde o dente estava preservado continha vestígios de um ecossistema marinho raso datado entre 7 milhões e 10 milhões de anos atrás. No mesmo estrato, foram recuperados fitólitos — estruturas microscópicas fossilizadas de plantas — que confirmam a presença antiga de palmeiras, gramíneas, vegetais com flores e espécies da família do gengibre, características típicas de uma floresta subtropical.
O mistério da travessia dos roedores
A descoberta também gerou debates sobre como esses animais conseguiram alcançar a porção ocidental do continente. Naquela época, a imponente barreira dos Andes já se erguia a cerca de 5.500 metros de altitude, inviabilizando a travessia direta a partir de outras regiões da América do Sul onde esses animais prosperavam.
Diante desse obstáculo físico, os autores da pesquisa, divulgada no periódico Scientific Reports, trabalham com a hipótese de que os ancestrais das capivaras migraram margeando o litoral oeste sul-americano. O deslocamento teria ocorrido de forma gradual, com os animais avançando por corredores ecológicos compostos por várzeas costeiras, deltas de rios e pequenos mananciais. Embora esses grandes roedores continuem espalhados por grande parte do continente sul-americano nos dias de hoje, eles não habitam mais o território chileno.
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