A experiência de enfrentar internações recorrentes em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) inspirou o escritor Pedro Bandeira a formular uma reflexão profunda sobre o modelo pedagógico do Brasil. Ao traçar um paralelo direto entre a medicina hospitalar e as salas de aula, o autor sustenta que os colégios nacionais deveriam implantar setores dedicados ao socorro pedagógico emergencial para resgatar crianças com histórico de baixo rendimento.
Habituado aos cuidados de alta complexidade desses “hotéis” hospitalares — vivência que o levou inclusive a prefaciar uma obra sobre os bastidores desse cotidiano sob a perspectiva de pacientes, famílias e equipes de saúde —, Bandeira observou que a individualidade é o princípio fundamental da recuperação: assim como cada enfermo possui necessidades exclusivas, nenhum estudante aprende da mesma forma.
O paralelo entre a medicina e a sala de aula
Ao analisar a dinâmica de uma turma típica composta por cerca de 30 estudantes, o autor divide o corpo discente em três perfis: aproximadamente cinco alunos são brilhantes e demandam pouco esforço docente; cerca de 20 compõem uma faixa intermediária que requer atenção equilibrada; e há um grupo residual de cinco crianças que não conseguem acompanhar os conteúdos, apresentam notas muito baixas ou demonstram comportamentos rebeldes.
O problema central, segundo Bandeira, reside no tratamento dispensado a essa última parcela, tradicionalmente rotulada como o “grupo do mau aluno”. Em vez de receberem diagnóstico e assistência qualificada, essas crianças costumam ser responsabilizadas pelas próprias falhas, sob alegações de desatenção ou desinteresse, terminando frequentemente suspensas ou expulsas do ambiente escolar.
Para ilustrar o contrassenso dessa conduta pedagógica, o escritor compara a punição escolar a uma hipotética reação médica absurda: “Seu Pedro Bandeira, o senhor não tem vergonha dessas artérias entupidas? E como vem aqui com esses 350 de glicose? Olhe aqui, vou dar-lhe três dias de suspensão do hospital e… E pare de sangrar enquanto eu estou falando!”
Centros de Educação Intensiva contra a evasão
Na visão do escritor, a rotulagem negativa dos jovens mascara um problema estrutural. Nenhuma criança deve ser categorizada como inerentemente má, uma vez que o desempenho reflete contextos socioeconômicos e culturais singulares. Da mesma forma que os médicos tratam pessoas em vez de enfermidades abstratas, a educação precisa focar o indivíduo e suas fragilidades.
A solução apontada por Pedro Bandeira para conter o abandono precoce dos estudos é a implantação de um Centro de Educação Intensiva em cada unidade escolar do país. O espaço funcionaria com capacitações e treinamentos direcionados aos estudantes com defasagem de aprendizado.
O autor alerta que o acolhimento desses jovens é determinante para o futuro social, pois o afastamento da escola frequentemente empurra os excluídos para o subemprego, a criminalidade organizada, o encarceramento e a violência urbana. Assim como o trabalho dos intensivistas foi capaz de preservar sua própria vida, o suporte pedagógico intensivo surge como uma ferramenta essencial para capacitar as novas gerações e assegurar seu pleno desenvolvimento.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
