O mercado financeiro deu uma guinada de cautela em relação ao avanço da inteligência artificial. O preço dos contratos de proteção contra calotes no segmento de tecnologia disparou para níveis recordes, impulsionado pela corrida dos investidores para mitigar riscos de estresse financeiro. O movimento atinge em cheio as operadoras de data centers que acumulam montantes elevados de dívidas para sustentar sua infraestrutura.
Esse cenário de aversão ao risco é amplificado pelo cenário macroeconômico norte-americano. Índices de inflação acima do previsto nos Estados Unidos, aliados à perspectiva de taxas de juros mais altas por mais tempo, colocam em xeque a sustentabilidade das operações. Analistas e investidores questionam a velocidade com que os aportes multibilionários na tecnologia se converterão em lucros concretos, fundamentais para honrar o encarecimento do serviço da dívida.
O sinal amarelo dos derivativos e a crise da CoreWeave
O termômetro do pessimismo veio por meio dos Credit Default Swaps (CDS), instrumentos negociados para cobrir o risco de inadimplência corporativa. A situação mais crítica é a da CoreWeave, empresa do modelo “neocloud” que opera no vermelho e acumula quase US$ 50 bilhões em dívidas. Os spreads de seus CDS de cinco anos superaram a marca de 1.100 pontos-base.
A métrica indica que a probabilidade estimada de calote da operadora nos próximos cinco anos saltou para 64%, bem acima dos cerca de 30% registrados um ano antes. Ao mesmo tempo, o rendimento do bônus da companhia para 2031 disparou até 16%, antes de estabilizar próximo a 14%.
A desconfiança refletiu diretamente nos papéis da empresa: as ações da CoreWeave recuaram mais 2% nesta quinta-feira, somando-se ao tombo de 15% registrado na quarta-feira. Com isso, a companhia perdeu quase um quinto de seu valor de mercado em apenas 48 horas, acumulando desvalorização de 10% no ano. Em contrapartida, as ações da concorrente Nebius, cujos CDS não são transacionados publicamente, acumulam salto de aproximadamente 114%.
“A CoreWeave está rapidamente se tornando o canário na mina de carvão do setor de IA”, alertou Kathleen Brooks, diretora de pesquisa da XTB. “Seus títulos sofreram uma forte desvalorização… isso é um sinal de que os investidores podem estar abandonando a narrativa de investimento em IA, que incluiu a emissão maciça de dívida para financiar as ambições em IA.”
Efeito cascata sobre as gigantes da tecnologia
O receio não se restringe a pequenos operadores e já atinge os balanços das maiores corporações do setor. Os spreads de CDS da Oracle, que também carrega um endividamento expressivo, beiraram os 300 pontos-base após uma escalada semanal de cerca de 31 bps. Contratos de proteção ligados a Nvidia, STMicroelectronics e até mesmo à SpaceX, que fornece soluções de IA, também apresentaram fortes altas.
Até gigantes consolidadas viram os custos de seguro contra inadimplência subirem para patamares históricos, a exemplo de Amazon, Alphabet e Meta, embora a trajetória de alta dessas três companhias ocorra de maneira bem mais contida em relação à observada na Oracle ou na CoreWeave.
O nervosismo do mercado em relação ao ritmo das aplicações levou até executivos do setor a emitirem avisos: recentemente, Hock Tan, presidente-executivo da Broadcom, comparou a euforia generalizada dos investidores com “jogos de cassino”.
Nem mesmo os números expressivos da Anthropic conseguiram conter a instabilidade. A desenvolvedora de inteligência artificial informou em reunião com investidores prévia ao seu IPO, realizada em San Francisco, que seu faturamento no terceiro trimestre saltou 45% frente ao trimestre anterior, alcançando US$ 16,8 bilhões. A meta da empresa é atingir uma avaliação de mercado na casa dos US$ 2 trilhões.
Mudança de ciclo: da euforia ao crédito
A mudança de humor reflete a transição dos modelos de financiamento adotados pela indústria, que passa a depender mais de captação externa do que do reinvestimento de caixa próprio.
“Esta não é a primeira vez que vemos uma oscilação considerável no mercado devido a receios em relação à IA, mas, à medida que avançamos para um ciclo de investimentos financiado por dívida em vez de simplesmente por fluxo de caixa livre, temos de respeitar cada vez mais a dinâmica dos preços do crédito. Os custos de financiamento da IA não são dramáticos no geral, mas existem temas preocupantes em alguns aspectos”, resumiu Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
