Quais desafios pessoas com deficiência podem enfrentar ao envelhecer?

Os novos desafios que pessoas com deficiência enfrentam ao envelhecer

Saúde

Graças aos progressos na medicina, na prevenção e nos tratamentos de saúde, indivíduos com diferentes tipos de deficiência estão vivendo por mais tempo. Essa conquista na longevidade, contudo, impõe novos desafios: a necessidade de aprender a lidar com as transformações naturais da idade em um organismo que já lida com restrições motoras, sensoriais ou intelectuais.

Vale destacar que não existe um padrão único. A forma como uma pessoa com deficiência (PCD) envelhece depende não apenas da intensidade e da natureza de sua condição, mas também do suporte e dos cuidados recebidos ao longo da jornada.

“Nosso envelhecimento depende de como a gente constrói isso na juventude também, além das nossas condições eventualmente genéticas ou de saúde”, afirma o geriatra Marcelo Altona, do Einstein Hospital Israelita.

Maiores conhecimentos sobre cada condição ajudaram a antecipar problemas e a aprimorar o acompanhamento médico, promovendo uma existência mais longa e de qualidade. No entanto, o aumento da expectativa de vida escancara questões antes pouco observadas nesse grupo, variando de acordo com a deficiência.

Impactos na mobilidade e deficiências motoras Em indivíduos com comprometimentos predominantemente motores — a exemplo de paraplegia, amputação ou paralisia cerebral sem déficit intelectual —, os reflexos do envelhecimento impactam principalmente o sistema locomotor.

Com o avanço da idade, qualquer pessoa perde força e massa muscular. Contudo, para quem já enfrenta barreiras de locomoção, esse declínio afeta diretamente a independência, fazendo com que estratégias usadas durante anos para compensar uma limitação percam eficácia.

“Uma pessoa jovem com problema de mobilidade pode ter braços fortes que ajudam. Com o passar dos anos e com o envelhecimento, os braços fortes que antes ajudavam não ajudam mais da mesma maneira”, exemplifica Altona.

O médico aponta que o quadro pode evoluir para sarcopenia, fragilidade, osteoporose, lesões cutâneas, dores crônicas e perda progressiva da mobilidade. A própria restrição de movimento favorece o sedentarismo, elevando indiretamente os riscos de hipertensão, obesidade e diabetes. Isso ocorre não porque a deficiência cause tais enfermidades, mas porque os obstáculos para a prática de exercícios físicos e a adoção de hábitos saudáveis geram maior vulnerabilidade com o passar dos anos.

Desafios nas deficiências intelectuais Por sua vez, as deficiências intelectuais apresentam outros obstáculos. Dependendo do grau de comprometimento, o indivíduo pode necessitar de auxílio para organizar a alimentação, buscar atendimento médico, fazer uso de medicamentos ou manter rotinas preventivas. Por essa razão, a rede de apoio edificada ao longo da vida faz toda a diferença na velhice.

O próprio atendimento médico ganha complexidade. “Durante a consulta clínica, dependendo do caso, é mais difícil saber exatamente o que a pessoa sente. Então, você precisa muito de uma parceria com o cuidador, que pode ser familiar ou não”, diz o geriatra.

Esse respaldo ganha novos contornos com o tempo. Diversas pessoas com deficiência intelectual dependem dos pais desde a infância, mas esses cuidadores também envelhecem, podendo adoecer ou falecer. Nesses cenários, a responsabilidade costuma ser transferida para irmãos, parentes ou para a rede de assistência social.

Particularidades da síndrome de Down Indivíduos com síndrome de Down possuem características específicas, tornando comum considerar os 40 anos como o marco inicial do envelhecimento nessa parcela da população. Determinados sinais surgem precocemente, incluindo alterações visíveis.

“A pessoa com síndrome de Down pode ter cabelos brancos e rugas mais cedo do que a população em geral. O mesmo acontece com o envelhecimento do aparelho locomotor, com a sarcopenia e a osteoporose”, afirma Marcelo Altona. Soma-se a isso uma maior predisposição genética para a doença de Alzheimer, exigindo monitoramento constante das funções cognitivas.

O cuidado além das doenças A assistência às pessoas com deficiência não deve se restringir ao diagnóstico e combate a enfermidades. Conforme os anos passam, torna-se essencial monitorar riscos de quedas, perda de força, alterações de humor e cognitivas, incontinência, mobilidade, capacidade comunicativa e suporte familiar. Sexualidade, saúde mental e autonomia também integram essa avaliação, mas frequentemente acabam em segundo plano diante das inúmeras demandas de reabilitação e consultas médicas.

Trata-se de um desafio considerável, visto que muitas PCDs já mantêm uma rotina exaustiva de cuidados desde a infância, englobando fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, acompanhamento nutricional, psicológico e consultas. Diante de novas complicações, o foco recae sobre o problema mais urgente, restando menos espaço para a prevenção.

“Quando a prevenção da pessoa com deficiência deve ser cobrada? Quando está tudo bem e não quando acontece alguma coisa”, orienta o médico do Einstein.

Como envelhecer com saúde As diretrizes para uma velhice saudável são idênticas para quem possui ou não deficiência: sono adequado, dieta equilibrada, controle do estresse, atividade física, estímulo cognitivo, vida social ativa e abstenção de álcool e tabaco. A principal divergência reside na adaptação dessas práticas conforme a intensidade e o tipo de deficiência.

Ajustes tornam-se indispensáveis. No caso de exercícios físicos, indivíduos com limitações motoras podem necessitar de órteses ou equipamentos específicos, adaptando-se melhor a atividades na água, sentadas ou deitadas. Já nas deficiências intelectuais, é preciso buscar práticas que a pessoa compreenda, aceite e sinta prazer em executar.

“A diferença entre o ideal e o factível é importante. Às vezes, uma caminhada bem feita é melhor do que um triatlo que ninguém vai conseguir fazer”, conclui Altona.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *