Quatro universidades federais do Nordeste destacaram-se entre as 20 melhores instituições de ensino superior do país em mais uma edição do Ranking Universitário Folha (RUF): a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), na 11ª posição; a UFBA (Universidade Federal da Bahia), na 14ª; a UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), na 17ª; e a UFC (Universidade Federal do Ceará), na 19ª.
Mais uma vez, essas instituições são as únicas representantes nordestinas no grupo de elite. O desempenho evidencia o trabalho de centros públicos localizados em uma área que historicamente enfrenta assimetrias tanto no financiamento quanto na produção científica.
O impacto dos rankings na gestão universitária
O papel dessas quatro instituições foi o objeto central de uma tese de doutorado recente, que analisou a presença delas tanto no RUF quanto em levantamentos internacionais de peso, a exemplo de QS (Quacquarelli Symonds), THE (Times Higher Education), Leiden e ARWU (Ranking de Xangai). O estudo buscou compreender de que maneira tais classificações acadêmicas são absorvidas pelas equipes gestoras.
Mediante o exame de documentos institucionais, métricas variadas e diálogos com reitores e administradores, constatou-se que as listas cumprem papéis que vão muito além da simples ordenação e publicidade. Os resultados obtidos nos rankings passam a fazer parte, em intensidades variadas, das rotinas de monitoramento, do planejamento estratégico, dos esforços de internacionalização e da consolidação da reputação das universidades.
Apropriações estratégicas nas instituições nordestinas
Esse processo ocorre de maneira heterogênea e repleta de contestações, conforme demonstram os registros documentais. No Plano Estratégico Institucional 2013–2027, a UFPE fixou a meta de integrar o grupo das cem melhores universidades do planeta, estipulando indicadores voltados a expandir sua inserção em classificações globais.
No âmbito da UFC, o Relatório de Gestão de 2024 incorporou, entre as metas da Política de Gestão de Riscos, a exigência de subir posições nos panoramas nacionais e internacionais de ensino, pesquisa e extensão.
De forma similar, o Relatório de Gestão de 2025 da UFBA ressalta colocações de destaque em exames internacionais, relacionando-as diretamente ao prestígio de sua produção científica. Por sua vez, a UFRN emprega os dados do RUF para demonstrar suas conquistas e seu desempenho no setor de inovação e patentes.
A absorção crescente dos rankings pela administração acadêmica já havia sido apontada pelo professor Adolfo-Ignacio Calderón em artigo publicado na Folha, e o novo estudo amplia o escopo ao trazer evidências específicas desse fenômeno na região Nordeste.
Regulação simbólica e resistência acadêmica
Entre as principais conclusões da pesquisa está a constatação de que os rankings funcionam como ferramentas de regulação simbólica da educação superior. Ao contrário da fiscalização estatal, que se apoia em leis e penalidades, a influência dos rankings ocorre por meio da circulação de padrões de desempenho, excelência, reputação e reconhecimento. Sem impor normas de conduta de forma direta, eles acabam moldando prioridades e rotinas institucionais.
Contudo, isso não se traduz em submissão absoluta. Nas entrevistas realizadas, dirigentes e administradores reconheceram falhas metodológicas, questionaram a validade de cotejar universidades que operam sob realidades distintas e manifestaram resistência em subordinar as missões institucionais à mera caça por melhores colocações. A dinâmica, portanto, combina apropriações, adaptações e confrontos.
O grande desafio reside em harmonizar o prestígio acadêmico nacional e internacional com as condições reais de funcionamento das universidades públicas. Barreiras associadas a verbas, infraestrutura e potencial de internacionalização impõem limites claros a essa disputa. Para as universidades nordestinas, o objetivo vai além de galgar degraus nas listas: é preciso consolidar a investigação científica, o ensino de qualidade e o compromisso social sem desconsiderar as demandas da região, aspectos que também devem ser valorizados quando se debate a excelência acadêmica.
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