Uma menina no meio da violência

Livro tanzaniano banido chega pela primeira vez ao Brasil

Cultura

O lançamento no Brasil do livro Rosa Mistika, escrito pelo autor tanzaniano Euphrase Kezilahabi, marca um momento histórico para a literatura nacional ao trazer, pela primeira vez, um romance originalmente composto em língua suaíli traduzido para o país. Estreado em 1971, o título integra uma das tradições literárias mais sólidas e expressivas de todo o continente africano, unindo a força de uma narrativa realista às duras críticas sociais de sua época.

A chegada desta obra ao mercado editorial brasileiro segue um caminho semelhante ao de Abdulrazak Gurnah, vencedor do Nobel de literatura em 2021 cuja produção literária também era inédita por aqui até receber a consagração internacional. A publicação nacional de Rosa Mistika foi viabilizada graças à edição em inglês lançada pela Yale University Press em 2025, com tradução de Jay Boss Rubin e prefácio de Annmarie Drury, além de ter sido escolhido pela New Yorker como um dos melhores livros do ano.

Censura e polêmica em 1971

Lançado originalmente por meio de um concurso do East African Literature Bureau, o livro desafiou a regra que exigia textos em inglês. Embora não tenha vencido a premiação, o júri decidiu publicá-lo, mas a obra foi rapidamente banida e tirada de circulação sob a acusação de ser pornográfica. Os censores alegavam que temas como violência sexual, aborto e abuso de autoridade feria a moralidade e os dogmas religiosos e católicos da época.

Como detalha Annmarie Drury no prefácio presente na edição brasileira:

“Na Tanzânia do início dos anos 1970, era incomum que um romance em suaíli tivesse como protagonista uma menina, e era controverso que um autor retratasse as experiências sexuais de uma jovem — em especial o aborto e a violência sexual.”

A trama acompanha a trajetória da protagonista Rosa, chamada carinhosamente de “Rosa, para abreviar”, filha primogênita de Regina e Zakarias descrita como “uma moça bonita, alta, humilde e não muito falante”. Ao longo das páginas, a jovem enfrenta opressões contínuas dentro da própria família, conforme ilustrado no trecho em que sofre uma agressão física do pai:

“Rosa foi chamada. Ela entrou no cômodo, arrastando o lençol atrás de si. Antes mesmo que pudesse dizer uma palavra, o golpe veio e ela caiu de novo. Estava à mercê do pai.”

Mesmo ao deixar a casa dos pais, onde vivia com a mãe, quatro irmãs e um irmão, a personagem continua vulnerável perante freiras, diretores escolares e homens, simbolizando as crises e desigualdades que afetavam a sociedade tanzaniana no período pós-independência.

Contexto histórico da Tanzânia

O lançamento e o consequente banimento do romance em 1971 ocorreram durante as comemorações da primeira década de independência da Tanzânia sob a liderança de Julius Nyerere, figura central do pan-africanismo. O país vivia o apogeu da política socialista da Ujamaa, termo em suaíli que remete à união e cooperação, em um momento de forte consolidação da nação e superação de heranças coloniais.

Críticas diretas aos costumes culturais, às instituições formais e, sobretudo, ao sistema educacional — pilar fundamental do projeto de erradicação do analfabetismo liderado pelo presidente Nyerere —, não eram toleradas pelo governo. Após a reversão de sua proibição, a obra de Kezilahabi transformou-se em leitura obrigatória no ensino médio da Tanzânia e do Quênia.

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