Crianças internadas no Hospital Santa Catarina – Paulista, situado no bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo, receberam a visita dos cães terapeutas Toddy, de 13 anos, Maria Pia, de 7, e Gael, de 8, na quarta-feira (28). A ação ocorreu na ala de internação e na UTI pediátrica, encantando tanto os pequenos pacientes quanto os médicos e profissionais de enfermagem, que pararam a rotina intensa para ver os animais fantasiados com adereços de Halloween.
Benefícios comprovados pela ciência
A iniciativa faz parte de um projeto mensal realizado desde fevereiro por meio de uma parceria entre o hospital e a associação sem fins lucrativos Terapia Cão Carinho. Getúlio Gregório, gerente assistencial do hospital, destaca que o programa “oferece uma pausa em uma rotina marcada por exames, procedimentos, dores e preocupações”.
Segundo Alexandre Simões, educador físico e um dos 22 voluntários do grupo, “nosso objetivo é proporcionar momentos de alegria, acolhimento e descontração, contribuindo para reduzir a ansiedade, o medo e a sensação de solidão”. Esse tipo de ação é classificado como Atividade Assistida por Animais (AAA), possuindo caráter recreativo, educativo ou motivacional, e pode ser aplicado em escolas, asilos e centros de saúde.
De acordo com a médica-veterinária Cristiane Fraga, pesquisadora e voluntária do Inataa (Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por Animais), o efeito calmante é imediato e comprovado cientificamente. Alguns minutos de contato positivo elevam os níveis de ocitocina — conhecida como o “hormônio do amor”, por estimular empatia, confiança e conexão — e reduzem o cortisol, hormônio associado ao estresse. Além disso, pesquisas apontam queda na frequência cardíaca e na pressão arterial, mesmo quando o contato se restringe a trocas de olhares. Contudo, pessoas com fobia ou que não gostam de bichos não são indicadas para a prática.
Rigor na seleção e cuidados com a saúde
Para integrar os projetos, os pets passam por uma avaliação comportamental rigorosa que testa sociabilidade, tranquilidade e tolerância a ruídos e ambientes desconhecidos. “O animal precisa gostar de interagir com pessoas, buscar espontaneamente o contato e se sentir confortável ao receber carinho, sem apenas tolerar a aproximação”, explica Cristiane Fraga.
Associações como a Patas Therapeutas utilizam não apenas cães, mas também gatos, coelhos, furões e até uma galinha, todos submetidos a protocolos de castração, vacinação em dia e avaliações periódicas. O treinamento de dessensibilização pode durar meses para preparar os bichos para barulhos e equipamentos médicos. O tempo de atuação é limitado a, no máximo, uma hora, seguindo diretrizes da IAHAIO (Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal), para evitar estresse crônico. No ambiente hospitalar, o Santa Catarina exige banho até 24 horas antes, vacinas atualizadas e proibição de circulação nas ruas antes da entrada.
Memórias marcantes
Para Silvana Prado, fundadora da Patas Therapeutas com 23 anos de experiência na área, “os bichos têm uma capacidade particular de se aproximar das pessoas: não fazem distinções nem se deixam afetar pela aparência ou condição física de quem encontram”.
Roberto Schiesser, voluntário da Terapia Cão Carinho há uma década, lembra de um paciente que se apaixonou por sua cadela Maria Pia e quis saber o contato de criadores para ter um animal igual após a alta. Cerca de uma semana depois, ao ligar para a família, Roberto recebeu a notícia de que o homem havia falecido no dia seguinte à visita. “Mas me disse também que a última foto dele sorrindo tinha sido tirada abraçado com a Maria Pia. E me agradeceu muito por aquele momento”, relata.
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