A crescente pressão comercial das fabricantes chinesas levou três dos maiores conglomerados automotivos da Europa a formarem uma frente comum. Volkswagen, Stellantis e Renault articulam um pedido formal para que a União Europeia implemente normas de incentivo à produção fabril local e garanta maior flexibilidade regulatória durante a transição para a frota elétrica.
A movimentação busca blindar a indústria do continente em um cenário marcado pelo ganho de espaço dos concorrentes asiáticos, custos de operação elevados, margens operacionais apertadas e orçamentos bilionários alocados na eletrificação.
O alinhamento entre as marcas ficou evidente durante o Salão do Automóvel de Paris, onde a Volkswagen assumiu o protagonismo das discussões por meio de conferências dedicadas à indústria continental.
Oliver Blume, diretor-executivo do Grupo Volkswagen, reforçou a urgência da iniciativa ao pontuar a representatividade das três montadoras:
“Representamos mais de 60% da produção automóvel europeia. Precisamos de garantir a base industrial da Europa e precisamos de fazer isso agora. Vendemos um grande número de carros com margens relativamente baixas. Este modelo de negócio está sob enorme pressão na Europa”.
O avanço rápido dos modelos chineses
Também presente ao evento parisiense, Philippe Brunet, diretor tecnológico do Grupo Renault, definiu a presença dos veículos da China como um verdadeiro “tsunami”. De acordo com dados apresentados pelo executivo, a participação das montadoras chinesas no continente europeu saltou de menos de 2% no ano de 2023 para 9,3% no fechamento do mês anterior, com estimativas de ultrapassar os 10% até o encerramento deste ano.
As reivindicações levadas à União Europeia
Para conter esse movimento, a aliança defende critérios comerciais mais equilibrados e a valorização do emprego regional. Em documento enviado à Comissão Europeia, os grupos sugeriram regras específicas de conteúdo local associadas a incentivos fiscais.
A proposta estabelece que, se 70% da frota fabricada por uma montadora se enquadrar nas diretrizes do selo “Made in Europe” em dado exercício, a linha completa terá direito aos benefícios governamentais no ano seguinte. O mecanismo foi idealizado para estimular a montagem no bloco sem desestruturar de forma abrupta a cadeia global de suprimentos.
O trio também concorda com incentivos voltados a veículos de pequeno porte, embora com caminhos distintos. François Provost, diretor-executivo do Grupo Renault, sugeriu congelar alterações nas exigências regulatórias para carros menores por um período de dez anos, o que ajudaria a reduzir custos fabris. Em contrapartida, Oliver Blume propôs créditos extras para montadoras que utilizem baterias fabricadas em solo europeu.
A flexibilização das metas rígidas de descarbonização para os próximos anos é outro ponto central das negociações. Sobre o tema, Antonio Filosa, diretor-executivo da Stellantis, afirmou:
“Algumas concessões serão necessárias, mas todos vamos sair a ganhar se tivermos regulamentações, incluindo flexibilidade em relação às emissões e condições equitativas”.
Resistência de BMW e Mercedes-Benz
Apesar da união entre Renault, Stellantis e Volkswagen, a postura protecionista não é unânime no setor automotivo alemão. Marcas como Mercedes-Benz e BMW manifestam cautela quanto a exigências rígidas de conteúdo local. Ambas possuem expressiva dependência comercial do mercado chinês e receiam que a intervenção europeia resulte em retaliações alfandegárias no exterior, prejudicando o fluxo global de exportações.
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