O deputado federal André Janones (REDE/MG) tornou-se um fenômeno no cenário político brasileiro após desenvolver uma tática inédita para ensinar a esquerda a utilizar o algoritmo a seu favor durante a disputa do segundo turno. O parlamentar estruturou o chamado Exército do Lula e converteu um canal de WhatsApp em uma central de mobilização digital que já acumula mais de 8,8 milhões de seguidores. É por meio dessa ferramenta que ele orienta os apoiadores sobre como burlar o sistema das redes para ampliar o alcance e a circulação de conteúdos favoráveis ao petista, gerando preocupação na extrema-direita e repercussão internacional.
A movimentação digital surtiu efeito prático nas pesquisas de intenção de voto. O levantamento do DataFolha passou a apontar um cenário de empate em 50% a 50%, enquanto a pesquisa do Instituto Vox Brasil do último dia 18 colocou Lula (PT) com 51% dos votos válidos contra 49% de Flávio Bolsonaro (PL). Diante do histórico de vitórias da extrema-direita em eleições nos Estados Unidos e na Europa com o uso massivo das redes sociais, a experiência brasileira de driblar o algoritmo pode servir de modelo para campanhas de esquerda em outras nações. “O mundo tá de olho no que está acontecendo no Brasil. Eu já tenho convite de 7 países para ir falar sobre redes sociais e algoritmo depois dessas eleições”, afirmou Janones hoje no Instagram.
Como funciona o método para treinar o algoritmo
No comando do Exército do Lula — cujo canal foi palco de uma live com o presidente que ultrapassou a marca de 6,6 milhões de visualizações —, o deputado propõe diretrizes simples e diretas baseadas em dois pilares fundamentais.
O primeiro princípio consiste em sinalizar ao algoritmo que as publicações da direita carecem de relevância. Para alcançar esse objetivo, a recomendação é abster-se de assistir, clicar, comentar ou compartilhar qualquer material relacionado a Flávio Bolsonaro, inclusive evitando discussões ou defesas de Lula nas postagens feitas pela oposição.
O segundo pilar é a tática batizada de “Explodeeee”. O parlamentar instrui a militância a interagir por meio de curtidas, comentários, compartilhamentos e novas conexões com perfis que produzem conteúdo pró-Lula, além de estimular a criação de vídeos originais. O intuito é fazer com que o algoritmo interprete essas ações como relevantes e distribua o material para uma audiência ainda maior. Com o uso simultâneo de hashtags específicas nos comentários, milhões de seguidores passaram a visualizar conteúdos de Lula em detrimento de publicações de Flávio Bolsonaro, movimento que reorganizou a influência sobre os eleitores após a derrota no primeiro turno.
A disputa pelo ambiente digital
Historicamente, a esquerda demorou a se apropriar do ambiente digital, enquanto a direita ocupou espaço de forma ampla nos últimos anos. Dados da pesquisa da Zeeng sobre os 100 políticos mais influentes no Instagram no primeiro semestre de 2026 mostram que 76 nomes pertenciam à direita ou centro-direita, contra apenas 16 da esquerda ou centro-esquerda.
A reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2024 e a vitória de Javier Milei na Argentina em 2023 evidenciaram o peso das plataformas digitais na política global. No entanto, o cenário brasileiro apresentou uma novidade. “Temos observado uma militância de esquerda muito ativa, algo que até então não acontecia”, afirmou a especialista em comunicação política Camila Braga, entrevistada pelo jornal O TEMPO.
A transição de meme a protagonista
Natural de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, André Janones construiu sua trajetória política sem seguir fórmulas tradicionais. Passando de cobrador de ônibus a advogado, ele adotou um estilo expansivo, irreverente e focado na comunicação direta com as pessoas. Inicialmente tratado por alguns setores como um personagem das redes ou um meme, o deputado soube capitalizar a atenção pública ao falar de maneira informal e acessível.
Sua atuação deu origem ao Exército do Lula e a representações bem-humoradas nas redes, como a imagem de São Janones Tadeu, “o padroeiro das viradas impossíveis”. O próprio parlamentar ressalta que o planejamento não ocorreu por acaso: ” Há oito anos eu venho defendendo que a esquerda precisa revolucionar a comunicação no nosso país, aprender o funcionamento do algoritmo das redes sociais”, lembrou.
O posicionamento das plataformas e da Justiça Eleitoral
Embora o comportamento dos usuários possa influenciar o direcionamento de conteúdos, plataformas como a Meta esclarecem que o Instagram avalia a probabilidade de engajamento, curtidas e salvamentos por parte do público. Da mesma forma, o YouTube utiliza métricas como tempo de exibição e compartilhamentos para personalizar recomendações. Dessa forma, a estratégia coordenada consegue modificar a distribuição de publicações sem alterar a programação interna dos sistemas.
A proporção alcançada pela mobilização também entrou no radar da Justiça Eleitoral. Na sexta-feira, 23 de outubro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, determinou que a Meta forneça dados detalhados sobre as operações do canal Exército do Lula, em atendimento a uma solicitação da coligação de Flávio Bolsonaro para apurar possíveis padrões de engajamento e amplificação de conteúdos. Especialistas jurídicos apontam que a mobilização voluntária de apoiadores nas redes digitais não configura, por si só, infração legal.
Caberá às urnas definir os rumos da disputa, mas o avanço do Exército do Lula já consolidou uma nova tática de campanha. Caso a vitória se confirme no domingo, Lula quebrará um marco histórico ao se tornar o primeiro candidato a reverter uma derrota no primeiro turno e vencer a eleição presidencial no segundo estágio do pleito.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
