Um estudo conduzido no Brasil revelou que treinos simples baseados no peso corporal conseguem reverter a fragilidade em pacientes da terceira idade, além de aprimorar a força, o desempenho funcional e diminuir índices da pressão arterial. A pesquisa avaliou um programa de treinamento intervalado aplicado em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada no município paulista de Sorocaba.
A fragilidade clínica engloba o declínio de diversos sistemas fisiológicos e a queda na resistência do organismo contra situações estressantes, a exemplo de infecções. O problema eleva os riscos de dificuldades nas tarefas diárias, quedas, internações hospitalares e óbito. No Brasil, a prevalência estimada da condição atinge 9,1%, enquanto no cenário mundial chega a 17,4%. Já a pré-fragilidade acomete 51,8% dos brasileiros e cerca de 46% da população global.
Durante meio ano, o projeto acompanhou 60 voluntários com idade média de 74 anos. Os indivíduos foram divididos aleatoriamente em duas frentes: uma turma praticou exercícios intervalados com o próprio peso corporal três vezes por semana, enquanto a outra manteve a rotina habitual para fins comparativos.
Os resultados positivos apareceram rapidamente. “A melhora já pode ser observada nas primeiras 12 semanas e ocorreu de forma progressiva até o final das 24 semanas de treinamento”, relata Lucas Marques Vieira, autor da pesquisa realizada na EACH em parceria com a University of Manitoba, no Canadá. “Consequentemente, também foram observadas melhorias na força dos membros inferiores, na velocidade da caminhada, na mobilidade e no desempenho em teste de levantar e sentar em uma cadeira”, diz.
Como funcionavam as sessões de treino
Com duração de 30 minutos por encontro, a prática ocorria três vezes por semana ao longo de 24 meses. A rotina começava com cinco minutos de aquecimento, passava para 20 minutos de tiros intervalados de 30 segundos de esforço intercalados com 30 segundos de descanso, e terminava com cinco minutos de alongamento. O grau de dificuldade subiu de moderado para vigoroso com o passar do tempo.
As atividades foram adaptadas e envolveram variações de agachamentos e movimentos multiarticulares, trabalhando membros superiores, inferiores e a região central do abdômen.
Critérios de avaliação da síndrome
O estado clínico foi categorizado segundo o modelo Fenótipo de Fragilidade de Fried. “A pessoa é considerada frágil quando apresenta três ou mais dos critérios; pré-frágil quando apresenta um ou dois; e robusta (não frágil) quando não apresenta nenhum”, diz Vieira.
Os parâmetros analisados foram: perda de peso involuntária (acima de 4,5 kg ou superior a 5% do total corporal em um ano); exaustão e cansaço excessivo; força de preensão manual reduzida medida por dinamômetro; baixa velocidade de marcha em percurso de 4,6 metros; e baixo nível de atividade física aferido por questionário.
Após 24 semanas, os ganhos surpreenderam. “Os resultados foram bastante animadores e o uso do próprio peso como resistência permitiu trabalhar diferentes grupos musculares sem a necessidade de equipamentos sofisticados”, explica o pesquisador. Dentre os voluntários inicialmente frágeis, 80% evoluíram para pré-frágeis e 20% alcançaram o perfil robusto. Entre os pré-frágeis, 69,2% tornaram-se robustos.
O estudo também notou queda na pressão arterial sistólica. Contudo, o peso corporal, o IMC, a taxa de gordura e a massa muscular apendicular não sofreram alterações expressivas.
Para o professor Francisco Luciano Pontes Júnior, orientador do estudo na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, o projeto “tem potencial para se tornar uma estratégia de manejo da fragilidade do idoso na atenção primária de saúde. Os exercícios exigem pouca infraestrutura e não dependem de equipamentos especializados”, diz. Os dados completos foram veiculados no periódico científico European Geriatric Medicine.
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