Com a proximidade de sua aguardada abertura de capital, a Anthropic revelou em seu prospecto de IPO que sete de seus cofundadores assumirão o controle conjunto de 50,1% do poder de voto por meio de uma classe especial de ações. A medida coloca à prova se os laços pessoais e as crenças compartilhadas da liderança conseguirão resistir às pressões do mercado acionário.
O documento S-1 divulgado pela empresa detalha que o grupo contemplado é formado pelo presidente-executivo Dario Amodei, a presidente Daniela Amodei, Tom Brown, Jack Clark, Jared Kaplan, Sam McCandlish e Christopher Olah. Com essa estruturação, os acionistas comuns ficarão praticamente sem nenhuma influência nas decisões estratégicas da companhia, delegando suas expectativas a um grupo rotulado no prospecto como “guardiões de nossa missão”.
“A equipe fundadora da Anthropic tem uma visão e uma cultura incrivelmente unificadas, algo bastante raro entre os laboratórios de IA de fronteira”, disse Jenny Xiao, ex-pesquisadora da OpenAI e sócia da Leonis Capital. “Isso é bastante tranquilizador para os investidores porque, embora a empresa já esteja bem estabelecida, a rotatividade da liderança ainda leva à perda de conhecimento institucional e prejudica a coerência cultural.”
As fatias individuais dos cofundadores foram estimadas em até US$ 15,5 bilhões (R$ 82,9 bilhões) na esteira da captação realizada em maio, rodada que elevou o valor de mercado da Anthropic para US$ 965 bilhões (R$ 5,16 trilhões). Além disso, os sete executivos firmaram o compromisso de destinar 80% de suas fortunas à caridade.
Origens e união dos cofundadores Os sete executivos trabalharam juntos na OpenAI até dezembro de 2020, data em que decidiram romper com a organização para fundar um laboratório próprio guiado pelo avanço responsável da inteligência artificial. A iniciativa nasceu após reflexões sobre os rumos velozes da tecnologia.
“As coisas nunca mais vão voltar a ser tranquilas”, disse Amodei em uma das primeiras reuniões da empresa.
Kaplan, amigo da época de pós-graduação, foi o responsável por sugerir inicialmente a separação, enquanto Amodei já havia colaborado anteriormente com Brown e Olah no Google. As investigações iniciais de Kaplan sobre “leis de escala” — que medem o aumento de capacidade dos modelos conforme o poder computacional e o volume de dados — acabaram por moldar as diretrizes atuais do setor.
Daniela Amodei, que atuava em políticas e segurança na OpenAI, e o ex-jornalista da Bloomberg Jack Clark, focado em comunicação e diretrizes, também integraram o grupo dissidente.
“Nós sete realmente sentíamos que tínhamos nossa própria visão e queríamos simplesmente colocá-la em prática à nossa maneira, em outro lugar, porque haveria menos atrito”, disse Daniela Amodei ao Financial Times no início deste ano.
A estrutura societária final optou pelo formato de uma public benefit corporation, visando equilibrar a captação de recursos bilionários com o impacto social da tecnologia.
Governança e dinâmica interna Mantendo relações estreitas, o grupo de cofundadores continua se reunindo com frequência no mesmo restaurante chinês em San Francisco que frequenta há anos. Entre as atribuições corporativas, os irmãos Amodei dividem o comando central: Dario foca na visão e em pesquisas aprofundadas, tendo apenas seu chefe de gabinete como subordinado direto, enquanto Daniela gerencia as operações diárias, liderando equipes de engenharia, pesquisa e políticas públicas.
Os executivos remanescentes também acumulam funções vitais. Jack Clark atua como porta-voz de políticas públicas; Christopher Olah comanda as pesquisas de interpretabilidade; e Tom Brown gerencia a infraestrutura computacional e as negociações com o governo americano. Benjamin Mann, nono integrante e oitavo funcionário a ingressar na empresa, é frequentemente tratado como cofundador, mas ficou de fora do bloco de votação principal.
O topo da governança corporativa da Anthropic conta com o Long-Term Benefit Trust, fundo que elege quatro dos sete assentos do conselho. Em paralelo, a sociedade Founder LLC concentrará o poder de voto necessário para nomear os outros três membros e dar a palavra final em negociações como aquisições.
“Eles podem compartilhar o compromisso com uma IA segura, mas ainda assim discordar sobre quando lançar um modelo, quanto gastar ou em quais mercados entrar”, pontuou Song Ma, professor de finanças e empreendedorismo da Escola de Administração de Yale. “Essas diferenças teriam consequências tanto para a gestão quanto para o controle da empresa. A maneira como essas pessoas lidarem com suas divergências internas será extremamente importante à medida que as opiniões do público em geral sobre a IA começarem a divergir.”
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