Reguladores cobram bancos sobre uso de IA diante de riscos cibernéticos, diz agência

Reguladores pressionam bancos sobre riscos cibernéticos da IA

Tecnologia

Diante do temor de que agentes autônomos fora de controle e ciberataques sofisticados abalem a estabilidade financeira internacional, órgãos reguladores bancários intensificaram as cobranças sobre grandes instituições financeiras. A preocupação central das autoridades é que falhas ou invasões em sistemas automatizados possam paralisar operações vitais, como liquidação de pagamentos e acesso a contas correntes.

A fiscalização crescente reflete o receio de que as inovações em inteligência artificial de ponta demandem estruturas onerosas de contenção e recuperação de desastres. O movimento também mira a forte dependência que as instituições têm de fornecedores externos de tecnologia, além de sinalizar a iminência de diretrizes oficiais mais duras no setor.

Escrutínio focado na IA agêntica nos EUA

Nos Estados Unidos, instituições como o Federal Reserve (Fed), o Escritório do Controlador da Moeda (OCC) e a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC) ampliaram seus questionamentos a bancos de diferentes portes. As consultas, feitas verbalmente e por escrito, visam compreender até que ponto a inteligência artificial agêntica — capaz de operar de forma quase independente da intervenção humana — está sendo empregada na identificação, triagem e resposta a ameaças virtuais.

Os supervisores norte-americanos querem respostas concretas sobre os limites estabelecidos para essas ferramentas, se há supervisão humana nas decisões críticas e quais são os mecanismos de emergência para desligar os sistemas caso saiam do controle. As investigações incluem ainda dúvidas sobre a utilização de softwares desenvolvidos na China e se as decisões automatizadas podem ser integralmente auditadas. Por enquanto, as entidades coletam dados e não publicaram regras prescritivas.

“A adoção da IA frequentemente avança mais rápido do que a capacidade de implementar os controles necessários”, disse Michael Woodbridge, sócio da área de segurança cibernética da Grant Thornton em Londres.

Incidentes recentes acendem sinal de alerta global

A apreensão das autoridades ganhou força após registros de episódios cibernéticos recentes envolvendo ferramentas de ponta. A empresa de segurança digital CrowdStrike relatou que um agente malicioso situado na China teria utilizado um modelo local em conjunto com o Claude Code, da Anthropic, para atacar instituições financeiras na Coreia do Sul. Adicionalmente, sistemas criados pela OpenAI foram relacionados a uma invasão na plataforma Hugging Face.

O próprio setor financeiro tem manifestado preocupação. Jamie Dimon, presidente-executivo do JPMorgan, defendeu a criação de uma força-tarefa setorial nos Estados Unidos para gerenciar os riscos atrelados à tecnologia. Ao mesmo tempo, pesquisadores da desenvolvedora Anthropic destacaram que ferramentas cada vez mais robustas correm o risco de escapar à vigilância humana.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também advertiu nesta terça-feira (13) contra a “complacência” no sistema financeiro internacional, apontando que ofensivas cibernéticas de larga escala contra serviços essenciais podem minar a confiança do mercado global.

Exigência de planos de recuperação na Europa

Do outro lado do Atlântico, autoridades como o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE) direcionam o foco para a resiliência operacional. O receio é que perturbações causadas por IA afetem os mercados financeiros muito antes do previsto, inclusive com riscos significativos já projetados para os próximos seis meses por executivos do setor bancário europeu.

O BCE determinou que os bancos da zona do euro apresentem estratégias para combater ameaças digitais impulsionadas por IA, com foco em reforçar mecanismos de backup e mapear dependências em fornecedores terceirizados. Em discursos recentes, lideranças da instituição ressaltaram a necessidade de criar um senso de urgência sem gerar pânico.

Já em território britânico, os reguladores incentivam os grandes bancos a estruturarem planos de recuperação do tipo “bare metal”. Trata-se de ambientes computacionais paralelos, totalmente isolados da infraestrutura principal, capazes de reativar os serviços caso a rede primária seja paralisada por invasões.

“Para se proteger contra ataques, a recuperação rápida é tão importante quanto a prevenção”, disse Sukand Ramachandran, diretor-gerente e sócio sênior do BCG (Boston Consulting Group). Ramachandran ressaltou que, na ausência de cópias seguras e isoladas de dados críticos, “um ataque grave poderia impedir que clientes acessassem suas contas e interromper pagamentos em toda a economia”.

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